Principais destaques:
- Um sistema robótico com IA conseguiu criar embriões humanos que resultaram em até 19 nascimentos saudáveis.
- A tecnologia automatiza mais de 200 etapas da fertilização in vitro, reduzindo falhas humanas.
- O avanço acelera debates éticos sobre automação, transparência e responsabilidade na reprodução humana.
A automação chegou a um dos territórios mais sensíveis da medicina. Um robô movido por inteligência artificial já participou diretamente da criação de embriões humanos que deram origem a 19 bebês nascidos na Cidade do México.
A tecnologia, desenvolvida pela startup americana Conceivable Life Sciences, é considerada a primeira capaz de executar todas as etapas da fertilização in vitro sem intervenção manual direta.
O sistema, chamado AURA, funciona como uma linha de montagem altamente precisa, trazendo a lógica industrial para um processo que historicamente depende da habilidade individual de embriologistas.
Como funciona o robô que cria embriões
Instalado em uma clínica no bairro de Polanco, o equipamento tem cerca de cinco metros de comprimento e pesa aproximadamente duas toneladas.
Ele opera por meio de seis estações robóticas que realizam desde a seleção de espermatozoides até a fusão com os óvulos e a preservação dos embriões.
Ao todo, mais de 200 procedimentos que antes exigiam mãos humanas passaram a ser executados de forma automatizada. Isso inclui preparo de placas, processamento de sêmen, injeção intracitoplasmática de espermatozoides e vitrificação.
Segundo a empresa, o objetivo é reduzir variações causadas por fadiga ou diferenças técnicas entre profissionais.
Resultados clínicos e planos de expansão
Em um estudo piloto, a tecnologia alcançou uma taxa de gravidez de 51%, com 21 gestações confirmadas e entre 18 e 19 nascimentos saudáveis.
Atualmente, a Conceivable conduz um ensaio clínico com 100 pacientes e planeja levar a tecnologia para os Estados Unidos em 2026.
Após levantar 50 milhões de dólares em uma rodada Série A, a empresa já soma cerca de 70 milhões de dólares em investimentos.
Para o CEO Alan Murray, a proposta não é substituir embriologistas, mas oferecer precisão robótica em etapas críticas do processo.
Ética, regulação e o futuro da reprodução assistida
O avanço reacendeu discussões profundas na bioética. Um estudo publicado em 2024 por pesquisadores da Universidade Monash alertou para riscos como desumanização da reprodução, viés algorítmico e falta de clareza sobre responsabilidades médicas.
O bioeticista Julian Koplin, um dos autores, destacou que algoritmos já começam a influenciar decisões sobre quais embriões terão mais chances de se tornar vidas humanas.
Para os pesquisadores, pacientes precisam ser informados e ter o direito de escolher se desejam ou não o uso da IA.
Jacques Cohen, diretor científico da empresa e colaborador do pioneiro da FIV Robert Edwards, classificou a tecnologia como um divisor de águas.
Ainda assim, especialistas lembram que muitas dessas aplicações não possuem aprovação formal da FDA, evidenciando um descompasso entre inovação e regulação.
