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    Home»Inteligência Artificial»Programadores vivem um luto silencioso enquanto a IA assume o código
    Inteligência Artificial

    Programadores vivem um luto silencioso enquanto a IA assume o código

    Renê FragaBy Renê Fraga
    ia luto

    Principais destaques:

    • Ferramentas de IA já escrevem código em minutos, abalando o valor emocional de habilidades desenvolvidas ao longo de anos.
    • Desenvolvedores relatam perda do estado de flow e crise de identidade profissional.
    • Estudos mostram que, apesar do avanço, a IA ainda falha em tarefas complexas do mundo real.

    A ascensão acelerada da inteligência artificial na programação está provocando algo além de ganhos de produtividade.

    Muitos desenvolvedores estão vivendo um processo emocional parecido com o luto, ao perceber que atividades que antes definiam sua identidade profissional agora são executadas quase instantaneamente por máquinas. O sentimento mistura fascínio, eficiência e uma inquietação difícil de ignorar.

    Essa reflexão ganhou força após um texto publicado por Gergely Orosz, criador do blog The Pragmatic Engineer, no qual ele admite estar aceitando a ideia de que a maior parte do código que irá para produção não será mais escrita diretamente por ele, mas por sistemas de IA. A constatação, embora racional, tem peso emocional real.

    Quando a habilidade vira commodity

    Ferramentas como o Anthropic Claude Code estão mudando a percepção de valor do trabalho técnico.

    Para muitos profissionais, décadas de estudo, prática e aperfeiçoamento agora parecem perder relevância diante de modelos que entregam soluções em minutos.

    O empreendedor Andrew Duca resumiu esse paradoxo em um post que viralizou: ele se diz ao mesmo tempo impressionado e abatido.

    Nunca foi tão divertido programar, mas a habilidade à qual dedicou dezenas de milhares de horas está rapidamente se tornando comum, quase descartável. O impacto não é financeiro apenas, é existencial.

    O desaparecimento do estado de flow

    Outro ponto recorrente nos relatos é a perda do chamado flow, aquele estado mental de imersão profunda em que o tempo parece desaparecer.

    Em vez de criar soluções passo a passo, muitos desenvolvedores agora supervisionam, corrigem e refinam o que a IA produz.

    O ex-líder de engenharia da Meta Erik Meijer contou que passou a buscar esse estado em hobbies manuais, como tocar instrumentos musicais.

    Segundo ele, em poucos meses, ferramentas como o Claude Code avançaram mais a prática da engenharia de software do que décadas de pesquisa acadêmica.

    A realidade ainda limita a automação total

    Apesar da ansiedade, os dados mostram que a IA ainda está longe de substituir completamente o trabalho humano. Um estudo conduzido pela Scale AI em parceria com o Center for AI Safety avaliou modelos da OpenAI, Google e Anthropic em projetos freelance reais.

    O resultado foi surpreendente: apenas cerca de 2,5% das tarefas foram concluídas de forma totalmente satisfatória sem intervenção humana.

    Em muitos casos, o trabalho parecia correto à primeira vista, mas falhava em detalhes essenciais, continha erros técnicos ou estava incompleto.

    Um dilema que vai além dos programadores

    Esse conflito emocional não deve ficar restrito à área de tecnologia.

    Um relatório recente da Microsoft alerta que o uso indiscriminado de IA pode enfraquecer o senso crítico dos profissionais e gerar o chamado workslop, conteúdo que parece útil, mas contém falhas.

    O estudo aponta que quase 40% dos trabalhadores já lidam mensalmente com esse tipo de problema e que jovens em cargos altamente expostos à IA tiveram queda perceptível nos níveis de emprego.

    Ainda assim, poucos negam o poder transformador da tecnologia. A IA permite concluir tarefas mais rápido e assumir projetos antes inviáveis.

    O desafio agora é profundo e humano: como equilibrar produtividade extrema com propósito, identidade profissional e a satisfação de criar algo com as próprias mãos.

    Renê Fraga
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    Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.

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