Principais destaques:
- Pesquisadores da DeepSeek e Alibaba pedem mais transparência e fiscalização independente nas regras de IA da China.
- O processo de registro de modelos ainda é considerado opaco e confuso, criando desafios para inovação e conformidade.
- O código aberto é visto como uma faca de dois gumes: inovação e risco andam lado a lado em um sistema regulatório em rápida expansão.
Em um movimento que ecoa nos bastidores da corrida global pela inteligência artificial, cientistas da DeepSeek e da Alibaba publicaram recentemente um artigo na revista Science com um apelo direto ao governo chinês: mais clareza e diálogo nas políticas de regulação de IA.
O estudo, divulgado há poucos dias, propõe regras mais transparentes nos registros de modelos, supervisão independente de ferramentas de código aberto e mecanismos concretos de verificação.
Para os autores, esses pontos são cruciais para manter o ritmo de crescimento da indústria de IA sem comprometer segurança e inovação.
Um sistema regulatório em rápida expansão e ainda cheio de sombras
A Administração do Ciberespaço da China (CAC) vem transformando o país em um laboratório vivo de governança tecnológica.
Até abril de 2025, mais de 3.700 ferramentas de IA generativa de 2.350 empresas diferentes foram registradas oficialmente, um crescimento de cerca de 300 novos registros por mês. É um volume impressionante, mas também um lembrete de como o sistema ainda é pouco transparente.
Muitos desenvolvedores relatam receber poucas explicações para rejeições de registro, enquanto os modelos aprovados aparecem apenas em listas agregadas, sem dados detalhados sobre avaliação ou critérios. Isso deixa as empresas navegando às cegas em um mar de normas, tentando compreender o que o governo realmente espera delas.
“As regras da China formaram uma colcha de retalhos complexa”, afirmam os autores do artigo.
Apesar disso, a pesquisa reconhece que o país conseguiu criar uma estrutura que incentiva a inovação, mas que precisa urgentemente de melhor comunicação e previsibilidade para não travar seu próprio avanço.
Código aberto: a fronteira entre oportunidade e risco
Um ponto especialmente delicado é o tratamento dado às plataformas de código aberto. Na China, essas ferramentas, assim como sistemas voltados à pesquisa científica, possuem isenções regulatórias importantes, o que contrasta com as abordagens mais rígidas dos Estados Unidos e da Europa.
Mas nem todos estão tranquilos com isso. Os especialistas alertam que, sem controles sólidos, tais isenções podem se tornar brechas para usos indevidos, incluindo manipulação de informação e desinformação em larga escala.
O problema, segundo os pesquisadores, é que as atuais definições do que seria um sistema com “atributos de opinião pública ou mobilização social” ainda são vagas.
Estudos recentes da consultoria Concordia AI, de Pequim, indicam que os riscos associados aos modelos chineses já se equiparam aos dos Estados Unidos, ressaltando a urgência de verificações independentes e políticas mais definidas para o uso aberto da tecnologia.
Implicações de mercado e o caminho à frente
A regulação chinesa de IA ainda é um mosaico em construção. Ela se apoia em pilares como registros pré-implantação, autoavaliações de risco, rotulagem de conteúdo gerado por IA e uma estratégia gradual e experimental de implementação.
Apesar de ainda não existir uma lei nacional unificada, padrões técnicos e regulatórios crescem rapidamente e já moldam o comportamento das empresas desde a metade de 2025.
Essa transformação vem impulsionando um novo mercado de conformidade e auditoria, com ferramentas para avaliação de modelos e software de monitoramento sendo cada vez mais procurados.
Para a DeepSeek e a Alibaba, o futuro da IA na China dependerá de duas condições fundamentais: orientações regulatórias mais claras e verificação independente por terceiros.
Só assim, dizem os autores, será possível sustentar um crescimento responsável em um ambiente onde inovação e controle precisam coexistir.
Como resume o coautor e professor de Direito Zhang Linghan, “a China passou de seguidora a líder em governança de IA”. Mas ele ressalta um alerta: esse protagonismo só será duradouro se o país conseguir superar a opacidade que ainda desafia tanto os desenvolvedores quanto os formuladores de políticas públicas.
