Pesquisadora deixa OpenAI após discordar de anúncios no ChatGPT

Renê Fraga
4 min de leitura

Principais destaques

  • Zoë Hitzig, economista e pesquisadora da OpenAI, pediu demissão após a empresa iniciar testes com anúncios no ChatGPT.
  • Ela alerta que a publicidade pode explorar a intimidade das conversas e abrir espaço para manipulação.
  • A OpenAI afirma que os anúncios não interferem nas respostas e que dados seguem protegidos.

A decisão da OpenAI de testar publicidade no ChatGPT provocou a saída de uma de suas pesquisadoras mais envolvidas com políticas de segurança.

Zoë Hitzig anunciou sua demissão nesta semana e tornou públicas suas preocupações em um artigo publicado no The New York Times, no dia 11 de fevereiro de 2026.

A economista, formada por Harvard e integrante da Harvard Society of Fellows, participou da construção das diretrizes iniciais que orientaram como os modelos de inteligência artificial seriam desenvolvidos, precificados e governados.

Após dois anos na empresa, ela afirma que a companhia deixou de fazer as perguntas fundamentais sobre riscos e incentivos econômicos.

A intimidade como ponto central da crítica

No artigo, Hitzig deixa claro que não considera a publicidade imoral em si. O problema, segundo ela, está no contexto específico do ChatGPT.

Diferentemente de redes sociais tradicionais, o chatbot se tornou um espaço onde milhões de pessoas compartilham dúvidas pessoais, medos, planos profissionais e até questões emocionais profundas.

Para a pesquisadora, construir um sistema de anúncios baseado nesse histórico cria um terreno delicado. Ela argumenta que ainda não existem ferramentas suficientes para compreender plenamente como esse tipo de segmentação pode influenciar comportamentos ou decisões. Em sua avaliação, o risco não é apenas comercial, mas estrutural.

Hitzig traça um paralelo com o modelo de negócios da antiga Facebook, apontando que a busca por engajamento e receita publicitária acabou, ao longo do tempo, enfraquecendo compromissos iniciais com privacidade e proteção de dados.

O que diz a OpenAI sobre privacidade

A OpenAI informou que começou a testar anúncios nos Estados Unidos para usuários do plano gratuito e da nova assinatura chamada Go. Segundo a empresa, os anúncios não influenciam as respostas do ChatGPT e os dados das conversas permanecem fora do alcance direto dos anunciantes.

De acordo com a companhia, a exibição de publicidade será baseada em temas das conversas, interações anteriores e histórico de engajamento com anúncios. Os usuários poderão consultar e limpar esse histórico quando desejarem.

Os planos pagos Plus, Pro, Business, Enterprise e Education continuarão sem anúncios. A empresa também declarou que não exibirá publicidade para menores de 18 anos nem associada a temas considerados sensíveis, como saúde, política ou saúde mental.

Alternativas propostas e pressão política

Em vez de adotar publicidade segmentada, Hitzig sugeriu outros caminhos. Entre eles estão modelos de subsídio cruzado, nos quais assinantes pagantes sustentariam o acesso gratuito, além da criação de estruturas de governança com supervisão independente e até cooperativas de dados que dariam aos usuários maior controle sobre suas informações.

O debate também chegou ao Congresso dos Estados Unidos. O senador Ed Markey enviou uma carta ao CEO da OpenAI, Sam Altman, alertando que anúncios em chatbots de IA podem transformar ferramentas úteis em estratégias de marketing capazes de explorar vínculos emocionais cada vez mais fortes entre usuários e assistentes virtuais.

A saída de Hitzig adiciona uma nova camada ao debate sobre o futuro da monetização em plataformas de inteligência artificial. À medida que esses sistemas se tornam mais presentes na vida cotidiana, a discussão deixa de ser apenas tecnológica e passa a envolver confiança, ética e o próprio modelo econômico que sustentará a próxima geração da internet.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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