Principais destaques:
- A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico afirma que a IA generativa pode gerar um falso senso de domínio do conteúdo.
- Estudantes tendem a acertar mais exercícios com IA, mas apresentam queda de desempenho quando ficam sem apoio tecnológico.
- O relatório defende ferramentas educacionais de IA desenhadas para ensinar processos, não apenas entregar respostas.
Um novo relatório da OCDE acendeu um alerta global sobre o impacto do uso indiscriminado de inteligência artificial nas escolas. Divulgado em 19 de janeiro de 2026, o Digital Education Outlook 2026 analisa como a adoção acelerada de ferramentas de IA generativa está transformando o aprendizado e aponta riscos claros para o desenvolvimento do pensamento crítico e da autonomia intelectual dos estudantes.
Segundo o documento, o uso da IA por alunos já se tornou algo comum em diversos países. O problema é que, na prática, essa adoção ocorre muito mais pela conveniência do que por objetivos pedagógicos bem definidos, o que pode comprometer a aprendizagem profunda.
A “miragem do falso domínio” no aprendizado
A OCDE descreve um fenômeno chamado de “miragem do falso domínio”. Nele, estudantes conseguem concluir tarefas e obter bons resultados aparentes com a ajuda da IA, mas não internalizam os conceitos necessários para resolver problemas sozinhos depois.
Um experimento citado no relatório, realizado com estudantes do ensino médio na Turquia, ilustra bem esse risco. Com acesso a um chatbot de IA, os alunos resolveram quase metade a mais de questões de matemática durante os exercícios. No entanto, quando avaliados posteriormente sem a ferramenta, tiveram um desempenho significativamente pior.
Para a OCDE, isso revela um tipo de preguiça cognitiva, em que a IA passa a ser usada como atalho, substituindo o esforço mental essencial para a aprendizagem real.
IA como tutora, não como atalho
O relatório não defende a proibição da IA nas escolas. Pelo contrário, sugere uma mudança de abordagem. Em vez de chatbots genéricos, a organização recomenda o desenvolvimento de sistemas educacionais criados especificamente para o ensino, em parceria com professores.
Essas ferramentas deveriam conduzir o aluno por etapas de raciocínio, usando perguntas e pistas, em um modelo mais próximo da tutoria socrática. Testes com esse formato mostraram que ele elimina os efeitos negativos observados anteriormente, embora ainda não gere ganhos claros em relação ao estudo sem IA.
A mensagem é direta: a tecnologia deve apoiar o processo de aprendizagem, não substituir o esforço intelectual.
Avaliações e professores sob pressão
Outro ponto crítico destacado pela OCDE é o modelo atual de avaliação escolar. Provas focadas apenas no resultado final perdem eficácia em um cenário onde a IA pode gerar respostas prontas. A organização defende avaliações orientadas ao processo, capazes de analisar como o aluno pensa, aprende e resolve problemas.
O relatório também aponta um sentimento crescente de sobrecarga entre professores, especialmente em regiões como Flandres, no norte da Bélgica. Muitos educadores relatam dificuldade em acompanhar as exigências digitais e integrar a IA de forma segura e pedagógica.
Apesar disso, países como Finlândia, Noruega e República Tcheca foram citados como exemplos positivos ao incluir alfabetização em IA nos currículos desde os primeiros anos escolares.
Para a OCDE, o desafio central dos próximos anos será garantir que a IA generativa se torne uma parceira do aprendizado, e não um atalho que comprometa a formação intelectual das novas gerações.







