O paradoxo da IA na sala de aula: ensinando mais, mas treinando menos o cérebro

Renê Fraga
5 min de leitura

✨ Principais destaques:

  1. Pesquisadores chilenos e da PUC advertem que o uso excessivo de IA pode reduzir a prática da leitura profunda em estudantes.
  2. A leitura não apenas transmite informações, mas funciona como um treino cognitivo, fortalecendo pensamento crítico e escrita.
  3. O desafio está em encontrar equilíbrio: usar a IA de forma criativa sem abrir mão do esforço intelectual que a leitura exige.

A ascensão de ferramentas de inteligência artificial, como o ChatGPT, abriu uma nova era para a educação. Porém, junto com as oportunidades, surgem também alertas importantes.

Pesquisadores do Centro de Investigación Avanzada en Educación (CIAE) da Universidade do Chile, em parceria com a Pontifícia Universidade Católica e o Centro Nacional de Inteligencia Artificial (CENIA), afirmam que a dependência passiva dessas soluções digitais pode enfraquecer uma das habilidades mais fundamentais para o desenvolvimento humano: a leitura profunda.

Eles apontam uma contradição reveladora: a IA pode facilitar a aprendizagem com resumos automáticos e respostas prontas, mas justamente por eliminar o esforço necessário, pode estar minando a base da compreensão crítica, da escrita e do pensamento elaborado.


O que está em risco: a “musculatura cognitiva” da leitura

De acordo com a pesquisadora Marcela Peña, o ponto central não é rejeitar a tecnologia, mas repensar como ela é utilizada.

Para ela, adolescentes e jovens precisam ser guiados no uso interativo da IA, em vez de apenas consumirem respostas finalizadas.

Ela sugere, por exemplo, transformar o ChatGPT em um parceiro de estudo: pedir que a ferramenta elabore múltiplas opções de ensaio sobre determinado tema e explique as etapas do raciocínio por trás da construção dos textos.

Assim, o estudante participa do processo, em vez de receber um “atalho” pronto.

Ernesto Guerra, do CIAE, complementa: quando usamos a IA apenas para obter respostas rápidas, corremos o risco de cair em uma ilusão de conhecimento.

A sensação é de que entendemos o conteúdo, mas, na prática, não houve o exercício mental de leitura, síntese e reflexão.

A metáfora usada pelos especialistas é clara: ler é como exercitar um músculo. Quanto mais se pratica, mais fortes ficam as conexões mentais responsáveis pelo vocabulário, pelo raciocínio complexo e pela capacidade crítica.

Mas, se terceirizarmos esse treino à máquina, esses “músculos cognitivos” podem se atrofiar.


Crianças em fase de alfabetização: o grupo mais vulnerável

O alerta se intensifica quando falamos de crianças em fase inicial de leitura e escrita. É nesse estágio que se formam os alicerces da alfabetização e, com ela, a base do pensamento crítico.

Se esse processo não for vivido de forma plena, há risco de comprometer habilidades fundamentais de compreensão e reflexão no longo prazo.

Além disso, os pesquisadores destacam um aspecto social. Embora a IA possa criar materiais personalizados e acessíveis em diferentes línguas e culturas, a democratização do acesso ainda está longe de ser realidade.

Hoje, quem mais se beneficia da tecnologia são justamente os grupos com maiores recursos e não os que enfrentam maiores barreiras educacionais.

Isso significa que, se não houver políticas públicas e iniciativas para reduzir essas desigualdades, a IA pode acabar ampliando e não diminuindo a distância entre estudantes de diferentes contextos.


Um novo conceito de alfabetização para o futuro

Os especialistas também levantam uma questão provocadora: estamos entrando em uma era em que a comunicação tende a ser cada vez mais multimodal: oral, visual e interativa.

A escrita, nesse cenário, pode ser vista como uma tecnologia de transição.

Mas essa transição não pode significar abandonar a leitura profunda, sob pena de perdermos benefícios únicos que só ela oferece: pensamento reflexivo, raciocínio elaborado e a habilidade de conectar ideias complexas.

A proposta dos pesquisadores é clara: precisamos reinventar a educação para equilibrar os ganhos da IA com a manutenção do esforço intelectual tradicional.

O caminho estaria em metodologias pedagógicas que não excluem a tecnologia, mas a utilizam como aliada, convidando professores e alunos a encontrar usos criativos, em vez de passivos.

Ou, como resumem os autores, o desafio real é aproveitar o potencial gerador da IA sem deixar que ela substitua a disciplina e o comprometimento que a leitura e a escrita cultivaram ao longo dos séculos.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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