O fim da era “blogar-por-dinheiro”

Renê Fraga
6 min de leitura

💰 Principais destaques:

  • O modelo de monetização baseado em anúncios está em colapso, afetando desde pequenos blogs até grandes veículos de mídia.
  • A ascensão da inteligência artificial e mudanças no comportamento de busca estão drenando o tráfego que antes sustentava esse ecossistema.
  • O futuro da criação de conteúdo online exige autoridade, múltiplas fontes de receita e foco em valor real para o leitor.

Por quase 30 anos, a internet foi movida por uma engrenagem simples e lucrativa: criar conteúdo, encher a página de anúncios e esperar o dinheiro cair na conta.

Esse modelo, que deu origem a impérios digitais e sustentou milhões de sites de nicho, está agora em colapso.

O que antes parecia uma mina de ouro, páginas recheadas de banners, pop-ups e links patrocinados, hoje se tornou um fardo.

O público rejeita experiências ruins, os anunciantes pagam cada vez menos e, para completar, a inteligência artificial está mudando radicalmente a forma como buscamos e consumimos informação.

Estamos presenciando o fim de uma era: a do “blogar-por-dinheiro” como motor da web.

Como chegamos até aqui: a era do tráfego fácil

Durante anos, três caminhos principais alimentaram esse modelo: SEO (otimização para buscadores), tráfego direto (inclusive de domínios com erros de digitação) e arbitragem de cliques, comprar visitas baratas em um lugar e lucrar com anúncios mais caros em outro.

Essa lógica não ficou restrita a blogueiros independentes. Grandes jornais e portais também se renderam à corrida por pageviews, muitas vezes priorizando títulos chamativos e volume de acessos em vez de relevância jornalística.

Com o tempo, a obsessão por monetização transformou páginas em verdadeiros labirintos de anúncios: rodapés fixos, vídeos automáticos, links disfarçados e recomendações de conteúdo duvidoso.

O resultado foi um efeito colateral inevitável: leitores frustrados, queda na confiança e, por fim, punições nos rankings do Google.

O motor que impulsionava a web começou a engasgar.

Por que o modelo está morrendo

A queda não aconteceu de repente, mas por uma soma de fatores:

  • Queda nos valores de anúncios: os cliques milionários de 2008 ficaram no passado. Hoje, os custos são mais altos, a concorrência é feroz e os retornos, cada vez menores.
  • A ascensão da IA: ferramentas como ChatGPT, Perplexity e Bing Copilot respondem perguntas diretamente, sem que o usuário precise visitar o site original. Ser citado não é o mesmo que receber tráfego.
  • Mudança no comportamento do usuário: ninguém mais tem paciência para rolar por 1.500 palavras de “encheção de linguiça” antes de encontrar a resposta. O público quer clareza, rapidez e utilidade.

O que antes era um jogo de quantidade agora se tornou uma disputa por qualidade e autoridade.

O impacto no ecossistema digital

O colapso do modelo publicitário não afeta apenas os donos de sites. Ele está desestabilizando toda a cadeia que cresceu em torno desse sistema:

  • Provedores de hospedagem: antes lucravam com milhões de sites descartáveis. Agora, precisam atender clientes mais exigentes, como e-commerces e criadores profissionais, que buscam estabilidade e segurança.
  • CMSs e construtores de sites: plataformas como WordPress não vão desaparecer, mas o público mudou. O novo usuário não é o blogueiro casual, e sim o empreendedor digital que precisa de confiabilidade, não de experimentação.
  • Redes de anúncios: pressionadas por margens menores e por publishers mais exigentes, terão que se reinventar, ajudando criadores a monetizar por meio de newsletters, comunidades e produtos digitais.

O que está em jogo não é apenas a sobrevivência de blogs, mas a transformação de toda a infraestrutura que sustentou a internet por décadas.

O que criadores e SEOs precisam fazer agora

O tempo do “conteúdo por volume” acabou. Para sobreviver, é preciso mudar de estratégia:

  • Menos quantidade, mais valor: em vez de mil artigos superficiais, dez conteúdos profundos e úteis podem gerar mais autoridade.
  • Construir reputação: a inteligência artificial privilegia fontes confiáveis. Autoria clara, citações e credibilidade são diferenciais.
  • Diversificar receitas: depender apenas de anúncios é arriscado. Afiliados, produtos digitais, assinaturas e serviços são alternativas viáveis.
  • Pensar no “nível da resposta”: páginas devem ser claras, escaneáveis e diretas, prontas para serem usadas como fonte em resumos de IA.

O fim da “assistência social para webmasters”

Durante anos, era possível ganhar algum dinheiro apenas criando sites rápidos, recheando-os de conteúdo raso e esperando os anúncios renderem. Essa fase acabou.

A inteligência artificial elevou o padrão. O que não agrega valor real simplesmente não aparece e se não aparece, não gera receita.

O futuro pertence a quem constrói algo que vale a pena ser lido, citado e lembrado.

Inspirado neste artigo.

Seguir:
Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
Nenhum comentário