Mulheres veem mais riscos na inteligência artificial do que homens, aponta novo estudo

Renê Fraga
4 min de leitura

Principais destaques:

  • Mulheres avaliam a inteligência artificial como mais arriscada do que os homens, segundo pesquisa acadêmica recente.
  • O receio está ligado tanto à maior aversão ao risco quanto à vulnerabilidade no mercado de trabalho.
  • Quando os benefícios são claros para os trabalhadores, o apoio feminino à IA cresce significativamente.

Um novo estudo publicado no periódico PNAS Nexus mostra que mulheres tendem a enxergar a inteligência artificial como mais arriscada do que os homens.

A pesquisa indica que essa percepção não surge por rejeição à tecnologia, mas por preocupações concretas com emprego, estabilidade profissional e incertezas sobre os impactos reais da IA no cotidiano.

O levantamento ouviu cerca de 3 mil pessoas nos Estados Unidos e no Canadá em novembro de 2023, por meio da plataforma YouGov.

Ao avaliar se os riscos da IA generativa superam seus benefícios em uma escala de 1 a 10, mulheres deram nota média de 4,87, enquanto homens ficaram em 4,38. Na prática, isso representa uma percepção de risco cerca de 11% maior entre elas.

Aversão ao risco ajuda a explicar o ceticismo

A pesquisa foi liderada por Beatrice Magistro, professora assistente de governança de IA na Northeastern University, em parceria com outros pesquisadores da Caltech. Para entender a raiz desse ceticismo, o grupo analisou como homens e mulheres lidam com riscos de forma geral.

Os participantes responderam a testes no estilo de loteria, nos quais precisavam escolher entre recompensas menores garantidas ou apostas com ganhos maiores e incertos.

As mulheres, de forma consistente, demonstraram maior cautela. Esse traço ajuda a explicar por que tecnologias com impactos ainda imprevisíveis, como a IA, despertam mais desconfiança.

Mercado de trabalho pesa na percepção feminina

Outro fator decisivo é a exposição desigual aos efeitos da automação.

O estudo aponta que mulheres têm maior probabilidade de atuar em funções mais vulneráveis a mudanças tecnológicas ou substituição por sistemas automatizados. Nível de escolaridade e tipo de ocupação foram usados como indicadores dessa exposição ao risco.

Segundo os autores, isso cria uma combinação delicada: maior aversão ao risco somada a uma chance real de impactos negativos no emprego.

Esse cenário ajuda a entender por que muitas mulheres se mostram mais cautelosas ao avaliar promessas de eficiência e inovação associadas à IA.

Apoio aparece quando os benefícios são claros

Apesar do ceticismo inicial, o estudo traz um dado relevante. Quando a adoção da inteligência artificial é apresentada de forma clara como benéfica para os trabalhadores, o apoio das mulheres cresce e se aproxima muito do observado entre os homens.

Isso sugere que a resistência não é à tecnologia em si, mas à falta de garantias sobre seus efeitos práticos.

Em perguntas abertas, mulheres foram mais propensas a dizer que viam poucos benefícios ou que não tinham certeza sobre as vantagens da IA. Já em cenários positivos e bem definidos, a aceitação aumentou.

O impacto nas políticas de inteligência artificial

Os pesquisadores alertam que ignorar essas diferenças de percepção pode aprofundar desigualdades já existentes.

Estudos recentes mostram que mulheres usam ferramentas de IA generativa com menos frequência do que homens, citando menor familiaridade, menos confiança e medo de penalizações profissionais.

Para os autores, políticas públicas e estratégias empresariais que levem em conta essas preocupações têm mais chance de promover uma adoção equilibrada da IA.

Caso contrário, o avanço da tecnologia pode criar novos eixos de desigualdade e até estimular reações contrárias ao seu uso em larga escala.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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