Principais destaques:
- Testes mostraram que grandes modelos de vídeo por IA não conseguem reproduzir coreografias reais com fidelidade.
- Além dos erros de movimento, falhas técnicas e imprecisões culturais continuam frequentes.
- Especialistas e dançarinos veem avanços rápidos, mas não acreditam em substituição da dança humana no curto prazo.
Os avanços recentes em vídeos gerados por inteligência artificial impressionam à primeira vista, mas ainda esbarram em limites claros quando o assunto é movimento humano complexo.
Uma investigação conduzida por The Markup em parceria com a CalMatters colocou à prova quatro dos principais modelos de vídeo por IA do mundo e revelou um problema comum: nenhum deles conseguiu reproduzir corretamente coreografias tradicionais e populares.
Foram testados o Sora 2 da OpenAI, o Veo 3.1 da Google, o Kling 2.5 da Kuaishou e o Hailou 2.3 da MiniMax. Ao todo, os sistemas receberam pedidos para gerar nove estilos de dança diferentes, incluindo coreografias virais do TikTok, danças indígenas e clássicos populares.
O resultado foi consistente: todas as plataformas mostraram pessoas dançando, mas nenhuma acertou a coreografia solicitada.
Falhas técnicas ainda chamam atenção
Dos 36 vídeos analisados, cerca de um terço apresentou problemas técnicos já conhecidos em vídeos gerados por IA.
Roupas que mudam repentinamente, cabelos que se transformam no meio da cena, cabeças girando de forma antinatural e membros que parecem derreter e se recompor continuam aparecendo, mesmo após melhorias observadas desde o fim de 2024.
Esses erros ficaram menos frequentes, mas ainda são suficientes para quebrar a ilusão de realismo, especialmente em movimentos rítmicos e sequenciais como os da dança, que exigem precisão corporal contínua.
Cultura e técnica não são detalhes secundários
As limitações não foram apenas técnicas. Avaliadores especializados apontaram falhas culturais importantes. Emily Clarke, integrante da Cahuilla Band of Indians, afirmou que as tentativas de reproduzir a dança do pássaro ficaram muito distantes da realidade, tanto nos movimentos quanto na música e no figurino.
Já a coreógrafa Emma Andre analisou uma versão da técnica moderna Horton gerada pelo Veo 3.1 e considerou o resultado visualmente convincente à primeira vista.
Ainda assim, notou vários momentos em que algo parecia errado, como posições impossíveis da cabeça ou o uso incorreto de sapatilhas em movimentos clássicos.
Dançarinos veem limites claros para a IA
Profissionais da dança entrevistados demonstraram pouco receio de serem substituídos. Muitos reconhecem o potencial da tecnologia, mas destacam que a profundidade emocional, o contexto cultural e a intenção artística ainda estão fora do alcance das máquinas.
A dançarina de folclore mexicano Arambula, especializada no estilo tradicional de Jalisco, apontou a ausência de elementos essenciais como trabalho de pés, postura e movimento da saia.
Mesmo assim, ela admitiu que, em uma rolagem rápida nas redes sociais, algumas falhas poderiam passar despercebidas sem o aviso de que se tratava de um vídeo gerado por IA.
Para pesquisadores em computação gráfica, como o professor James O’Brien, da UC Berkeley, o desafio é conhecido.
Ele lembra que a IA evolui rápido quando recebe foco específico, mas ressalta que, por enquanto, os modelos ainda não conseguem capturar a nuance física e cultural que define a dança humana autêntica.
