Principais destaques:
- Modelos avançados de IA tendem a assumir que humanos tomam decisões mais racionais do que realmente tomam.
- Em jogos clássicos de economia, essa suposição faz com que a IA adote estratégias sofisticadas demais e perca desempenho.
- A diferença entre o raciocínio humano e o da IA levanta alertas sobre o uso desses sistemas em decisões do mundo real.
Pesquisadores identificaram uma limitação curiosa em modelos modernos de inteligência artificial.
Segundo um estudo publicado no Journal of Economic Behavior & Organization, sistemas como ChatGPT-4o e Claude Sonnet 4 partem do princípio de que as pessoas são excessivamente racionais. Na prática, isso faz com que a IA jogue “bem demais” e acabe tomando decisões que não combinam com o comportamento humano real.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade HSE, em parceria com uma pesquisadora da Universidade de Lausanne, e analisou como diferentes modelos de IA se comportam em situações de decisão estratégica.
Quando a lógica perfeita vira um problema
O experimento central foi o famoso jogo “Adivinhe o Número”, bastante usado em estudos de economia comportamental. Nele, cada participante escolhe um número entre 0 e 100, e vence quem chegar mais perto da metade da média de todos os valores escolhidos.
Enquanto grupos humanos costumam chegar a números em torno de 25 a 30, os modelos de IA testados escolheram valores ainda menores. A razão é simples: eles presumem que os outros jogadores também vão pensar de forma altamente estratégica, reduzindo sucessivamente suas escolhas até quase zero.
Esse comportamento está alinhado com a teoria dos jogos, mas não com a realidade. Humanos raramente seguem esse raciocínio lógico até o fim, o que faz com que a estratégia da IA se torne, paradoxalmente, menos eficaz.
IA se adapta, mas não como humanos
Os pesquisadores observaram que os modelos ajustavam suas decisões conforme o perfil dos oponentes. Diante de estudantes iniciantes, a IA escolhia números mais altos; contra especialistas em teoria dos jogos, quase zerava suas apostas. Mesmo assim, falhou em identificar estratégias dominantes em versões simplificadas do jogo com apenas dois participantes.
Segundo Dmitry Dagaev, um dos autores do estudo, a IA respondeu às mudanças no jogo de maneira semelhante às pessoas, mas baseou suas escolhas em longas cadeias de raciocínio sobre o que os outros poderiam fazer, em vez de captar atalhos comportamentais comuns entre humanos.
Impactos para negócios, mercados e políticas públicas
As conclusões ganham peso em um momento em que sistemas de IA passam a substituir humanos em processos de decisão dentro de empresas, mercados financeiros e até políticas públicas. Em muitos desses contextos, agir como um humano médio pode ser mais eficaz do que seguir a lógica perfeita da teoria econômica.
O estudo dialoga diretamente com o chamado concurso de beleza keynesiano, conceito criado por John Maynard Keynes, que mostra como o sucesso em mercados depende menos da melhor escolha individual e mais da capacidade de prever o comportamento coletivo.
Ao final, os pesquisadores destacam que entender onde a IA se aproxima e onde se afasta do comportamento humano será decisivo para implantar esses sistemas com segurança e eficiência no cotidiano.
