Principais destaques:
- Linus Torvalds vê a inteligência artificial como uma ferramenta útil, mas alerta: não serve para trabalhos críticos ou de manutenção complexa.
- O criador do Linux e do Git defende que o “vibe coding” pode ser uma boa porta de entrada para iniciantes na programação.
- Mesmo otimista, Torvalds prefere o “tédio” da estabilidade tecnológica a inovações que possam causar problemas globais.
Durante o Open Source Summit, realizado pela Linux Foundation em Seul, o lendário criador do Linux e do Git, Linus Torvalds, falou abertamente sobre o papel da inteligência artificial no desenvolvimento de software.
Em um bate-papo conduzido por Dirk Hohndel, diretor de código aberto na Verizon, Torvalds demonstrou uma postura equilibrada e curiosa, mas cautelosa.
Ele se declarou “razoavelmente positivo” em relação ao vibe coding, expressão usada para descrever o uso de IA generativa para auxiliar em tarefas de programação.
Para ele, essa prática é uma ótima maneira de atrair novos programadores, permitindo que curiosos experimentem o poder da automação sem precisar de muito conhecimento técnico.
Contudo, Torvalds alertou: o mesmo entusiasmo não deve ser levado para ambientes de produção. “Manter esse tipo de código seria um pesadelo”, disse.
Para o engenheiro, a IA pode ajudar a aprender a programar, mas não deve substituir o trabalho artesanal e criterioso necessário para softwares que operam em escala global.
Entre o tédio produtivo e o medo do hype
Torvalds, que há quase duas décadas não codifica diretamente o núcleo do Linux, explicou que hoje seu papel é mais de curador e mediador das ideias que surgem na comunidade.
Antes conhecido por rejeitar mudanças arriscadas, ele admitiu que às vezes precisa “dizer sim” a propostas que enfrentam resistência interna, um exemplo notório é a integração da linguagem Rust ao kernel, que está finalmente deixando de ser um experimento para virar parte essencial do sistema.
Mesmo assim, ele deixou clara sua preferência pelo que chamou de “caminho entediante”: a estabilidade. “Gosto do tédio”, afirmou. “Tédio, para mim, significa não ter recursos empolgantes que vão quebrar milhões de máquinas pelo mundo.”
Para Torvalds, a IA ainda está em uma fase exageradamente inflada. Ele espera o dia em que a tecnologia se tornará algo “normal”, parte do cotidiano de desenvolvedores, sem o frenesi midiático atual.
A IA e o Linux: aliados improváveis
Ao ser questionado sobre o domínio da Nvidia no ecossistema de hardware de IA, especialmente com o CUDA e os microkernels proprietários, Torvalds mostrou pragmatismo.
Para ele, o que a IA trouxe de bom foi forçar a Nvidia a cooperar mais com o Linux, uma mudança de postura notável em relação a duas décadas atrás, quando a empresa era criticada por fechar seu código.
Ele também comentou que as ferramentas de IA têm causado certo caos na infraestrutura da comunidade open source, especialmente com crawlers que extraem dados do site kernel.org.
Em alguns casos, esses agentes automáticos geram relatórios de segurança e bugs falsos, baseados em interpretações erradas de modelos de linguagem. Ainda assim, Torvalds afirmou que o impacto é menor do que o vivido por outros projetos, como o curl.
Ao final, ele admitiu que ainda não usa nem testa IA para codificação, mas acredita que desenvolvedores do kernel já estejam explorando possibilidades.
Quanto ao futuro, ele comparou o avanço da IA à chegada dos compiladores: uma ferramenta que multiplicou a produtividade dos programadores sem substituí-los.
Apesar de sua fala firme, Linus manteve o humor característico. Disse que lê quase todos os e-mails que recebe, mas raramente responde.
“Posso garantir que vou ler sua mensagem, mas também posso garantir que quase nunca vou responder.”
