Principais destaques
- Um sistema de IA analisou quase 100 milhões de imagens do arquivo do Hubble em apenas dois dias e meio.
- Foram identificados mais de 1.300 objetos cósmicos raros, muitos nunca descritos pela ciência.
- A pesquisa mostra como a inteligência artificial será decisiva para lidar com o tsunami de dados astronômicos que está por vir.
Um feito que levaria anos para astrônomos humanos foi concluído em questão de dias por um sistema de inteligência artificial.
Pesquisadores europeus aplicaram uma rede neural ao arquivo completo de 35 anos do Telescópio Espacial Hubble, da NASA, e encontraram mais de 1.300 fenômenos cósmicos raros, muitos deles totalmente desconhecidos até agora.
O estudo, conduzido por cientistas da Agência Espacial Europeia, foi publicado na revista científica Astronomy & Astrophysics e marca a primeira varredura sistemática por anomalias em todo o acervo histórico do Hubble.
Uma IA treinada para encontrar o inesperado
A ferramenta, batizada de AnomalyMatch, combina aprendizado semissupervisionado com aprendizado ativo. Na prática, isso significa que o sistema aprende padrões por conta própria, mas também refina suas decisões a partir do feedback de especialistas humanos.
Em apenas dois dias e meio de processamento, a IA conseguiu identificar estruturas que passariam despercebidas em análises tradicionais. Cerca de 65 por cento dos objetos detectados não tinham qualquer referência anterior em bases de dados científicos, o que indica descobertas genuinamente novas para a astronomia.
Lentes gravitacionais, galáxias raras e formas estranhas
Entre as curiosidades encontradas estão 138 candidatas a lentes gravitacionais, fenômenos em que a gravidade de uma galáxia distorce a luz de objetos ainda mais distantes, criando arcos e anéis quase perfeitos. A IA também localizou mais de 400 fusões de galáxias desconhecidas, além de galáxias-água-viva com longos tentáculos de gás, galáxias de anel formadas por colisões e discos protoplanetários vistos de perfil que lembram borboletas ou hambúrgueres cósmicos.
Alguns objetos, no entanto, desafiaram completamente os sistemas atuais de classificação. Eles não se encaixam em nenhum modelo conhecido, o que abre espaço para novas hipóteses sobre a formação e a evolução do universo.
Preparação para o dilúvio de dados astronômicos
O sucesso do AnomalyMatch chega em um momento crítico. Missões como o Euclid, o observatório Vera C. Rubin Observatory e o futuro Telescópio Espacial Nancy Grace Roman devem gerar volumes de dados tão grandes que análises manuais se tornam inviáveis.
Ferramentas baseadas em inteligência artificial passam a ser vistas não apenas como apoio, mas como peças centrais da pesquisa científica. Elas permitem que astrônomos foquem na interpretação e na descoberta, enquanto algoritmos cuidam da tarefa monumental de encontrar o inesperado em meio a bilhões de imagens.
