IA revela milhares de terremotos ocultos em Campi Flegrei, na Itália

Renê Fraga
4 min de leitura

✨ Principais destaques:

  • IA quadruplica o número de terremotos detectados em uma das regiões vulcânicas mais perigosas da Europa.
  • Novas falhas geológicas foram identificadas, ajudando a prever riscos e impactos futuros.
  • Dados em tempo quase real podem acelerar respostas emergenciais e proteger populações locais.

Uma lente mais nítida para enxergar o invisível

Campi Flegrei, uma imensa caldeira vulcânica localizada próxima a Nápoles, na Itália, abriga centenas de milhares de pessoas e é considerada uma das áreas de maior risco geológico do mundo.

Até pouco tempo atrás, os registros sísmicos da região eram limitados e muitas vezes imprecisos.

Agora, graças a um modelo de inteligência artificial desenvolvido em Stanford, cientistas conseguiram transformar dados antes “borrados” em uma visão cristalina da atividade subterrânea.

O resultado é impressionante: o número de terremotos detectados entre 2022 e 2025 saltou de cerca de 12 mil para mais de 54 mil.

Além disso, a IA revelou falhas geológicas até então desconhecidas, fundamentais para estimar a magnitude de futuros tremores e orientar planos de segurança urbana.

Essa pesquisa, publicada na revista Science, é fruto de uma colaboração entre Stanford University, o Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia da Itália (INGV) e a Universidade de Nápoles Federico II.


O histórico de inquietação de Campi Flegrei

A caldeira de Campi Flegrei não é apenas um ponto turístico de beleza natural, mas também um lembrete constante da força da Terra.

Desde a década de 1950, a região passa por ciclos de agitação sísmica e elevação do solo, fenômeno conhecido como bradisismo.

Nos anos 1980, por exemplo, o solo se elevou mais de 2 metros, forçando a evacuação de 40 mil pessoas. Mais recentemente, em 2025, cinco terremotos acima de magnitude 4 ocorreram apenas nos primeiros oito meses do ano.

A nova análise com IA mostrou que duas falhas convergem justamente sob a cidade de Pozzuoli, um dos pontos mais vulneráveis da região. Segundo especialistas, essas estruturas podem gerar terremotos de magnitude 5, um risco significativo para uma área tão densamente habitada.


Pressão sob a superfície: o que a IA revelou

A caldeira de Campi Flegrei tem cerca de 13 km de diâmetro e foi moldada por erupções gigantes há 39 mil e 15 mil anos.

Hoje, o maior perigo imediato não é uma erupção catastrófica, mas sim terremotos moderados e rasos, capazes de afetar diretamente a população e a infraestrutura local.

O modelo de IA trouxe clareza inédita ao identificar uma falha em anel que acompanha áreas de elevação do solo, especialmente na parte norte da caldeira.

Essa descoberta sugere que a pressão subterrânea está se acumulando e liberando energia em forma de tremores.

A boa notícia é que não há sinais de magma subindo em direção à superfície, o que reduz a probabilidade de uma erupção iminente. Ainda assim, a capacidade de monitorar a atividade sísmica em tempo quase real é um avanço crucial para a segurança pública.


O que isso significa para o futuro

O sucesso da IA em Campi Flegrei abre caminho para sua aplicação em outras regiões vulcânicas do mundo, como Santorini, na Grécia, que também enfrenta enxames sísmicos frequentes.

A possibilidade de localizar rapidamente a origem dos tremores pode fazer a diferença entre uma resposta emergencial eficaz e um desastre.

Como destacou Greg Beroza, professor de geofísica em Stanford: “A sismicidade pode mudar a qualquer momento. O mais importante é que agora temos uma visão clara e operacional da situação.”

Para os moradores de Nápoles e arredores, essa clareza pode significar mais do que ciência: pode representar vidas salvas.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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