IA pode reduzir a habilidade de médicos em detectar câncer de cólon, aponta estudo

Renê Fraga
3 min de leitura
Photo by RDNE Stock project on Pexels.com

✨ Principais destaques:

  • Estudo europeu revela um paradoxo: médicos que usam IA em colonoscopias podem perder parte da habilidade de identificar tumores sem a ajuda da tecnologia.
  • Queda significativa: a taxa de detecção de adenomas caiu de 28,4% para 22,4% após a introdução da IA.
  • Equilíbrio é a chave: especialistas defendem que a IA deve ser usada como apoio, sem substituir a atenção e o olhar humano.

A inteligência artificial tem sido celebrada como uma das maiores aliadas da medicina moderna, especialmente no diagnóstico precoce de doenças graves como o câncer.

No entanto, um novo estudo europeu trouxe à tona uma preocupação inesperada: o uso contínuo de ferramentas de IA pode, paradoxalmente, enfraquecer a habilidade dos médicos em detectar tumores quando a tecnologia não está disponível.

A pesquisa foi conduzida em quatro centros de endoscopia na Polônia, dentro do projeto ACCEPT (Artificial Intelligence in Colonoscopy for Cancer Prevention), iniciado no fim de 2021.

O objetivo era avaliar como a introdução de sistemas de detecção de pólipos auxiliados por IA impactaria a prática clínica.

O que os números revelam

Entre setembro de 2021 e março de 2022, mais de 1.400 pacientes foram submetidos a colonoscopias, algumas com auxílio da IA e outras sem.

O resultado chamou a atenção: a taxa de detecção de adenomas (ADR), que mede a eficácia do exame em identificar tumores, caiu de 28,4% para 22,4% quando os médicos realizaram o procedimento sem a ajuda da tecnologia, após já terem se acostumado a usá-la.

Essa queda de 6% pode parecer pequena, mas, segundo especialistas, tem impacto direto na sobrevivência de milhares de pacientes.

Como destacou o médico e especialista em IA aplicada à saúde, Dr. Harvey Castro, até mesmo uma variação de 1% pode alterar significativamente os desfechos do câncer de cólon em nível populacional.

O futuro: médicos e máquinas lado a lado

O estudo, publicado na revista Lancet Gastroenterology and Hepatology, reforça um ponto crucial: a medicina continua sendo, antes de tudo, uma profissão humana.

A tecnologia pode ampliar a visão, mas não deve substituir o olhar clínico, a experiência e a intuição dos profissionais de saúde.

Para Castro, o caminho não é rejeitar a IA, mas integrá-la de forma inteligente e equilibrada. Isso significa investir em treinamento, supervisão e no design de ferramentas que fortaleçam a prática médica, em vez de criar dependência.

Em suas palavras, o futuro mais promissor é aquele em que “médico e máquina trabalham juntos, garantindo diagnósticos mais precisos e cuidados mais seguros para os pacientes”.

Seguir:
Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
Nenhum comentário