IA pode aumentar o estresse dos trabalhadores ao transferir funções para correção de erros

Renê Fraga
3 min de leitura

Principais destaques:

  • A automação com inteligência artificial nem sempre reduz a carga de trabalho e pode gerar novas pressões psicológicas.
  • Trabalhadores passam a supervisionar sistemas de IA, revisar resultados e corrigir falhas, o que aumenta estresse e ansiedade.
  • Estudos recentes indicam que, em alguns casos, a IA pode até reduzir a produtividade esperada.

A adoção acelerada da inteligência artificial no ambiente corporativo está levantando um alerta importante: em vez de aliviar o trabalho humano, a tecnologia pode estar criando novas formas de sobrecarga emocional e cognitiva.

Um relatório publicado na revista Occupational Medicine aponta que a automação tem deslocado profissionais da execução direta de tarefas para a supervisão constante de sistemas inteligentes, exigindo atenção redobrada e responsabilidade ampliada.

O estudo foi conduzido por pesquisadores do Imperial College London em parceria com a Microsoft e destaca que essa transição muda profundamente a natureza do trabalho humano.

Quando a IA automatiza tarefas, surgem novas pressões

À medida que sistemas inteligentes assumem atividades rotineiras, os trabalhadores passam a atuar como gestores da IA. Isso inclui instruir ferramentas automatizadas, revisar decisões, identificar erros e lidar com consequências emocionais ou operacionais das falhas. Segundo a pesquisadora Lara Shemtob, líder do estudo, essas novas funções têm demandas psicológicas próprias e muitas vezes invisíveis.

O risco, segundo o relatório, é a criação de cargas de trabalho ocultas. A automação promete eficiência, mas, na prática, pode gerar mais estresse, ansiedade e sensação de ambiguidade de papel, especialmente quando não há clareza sobre responsabilidades humanas e limites da tecnologia.

Evidências mostram que produtividade nem sempre aumenta

Essas preocupações são reforçadas por dados recentes da organização sem fins lucrativos METR. Em um estudo realizado em julho de 2025, desenvolvedores experientes que utilizaram o assistente de programação Cursor trabalharam, em média, 19% mais lentamente do que aqueles que não usaram IA.

Grande parte do tempo foi consumida na revisão e correção de erros gerados pela ferramenta. Menos de 44% das sugestões automáticas foram aceitas, contrariando a expectativa inicial dos participantes, que acreditavam que a IA reduziria o tempo de trabalho em quase um quarto.

Saúde mental entra no centro do debate sobre IA

Para especialistas em saúde ocupacional, o impacto psicológico da IA precisa ser tratado como prioridade. O professor Neil Greenberg, presidente da Sociedade de Medicina Ocupacional, reconhece os benefícios da tecnologia, mas ressalta os riscos. Segundo ele, a integração da IA no trabalho pode trazer consequências negativas para o bem-estar mental se não for bem gerenciada.

Os pesquisadores concluem que entender a relação entre humanos e sistemas inteligentes representa a próxima fronteira crítica da saúde ocupacional. Em um cenário em que empresas investem bilhões em IA generativa, os retornos podem ser limitados se o custo humano da automação for ignorado.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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