IA cria modelo inédito para prever risco de infarto em pacientes com câncer

Renê Fraga
3 min de leitura

Principais destaques:

  • IA avalia risco de morte, sangramento grave e novos eventos cardíacos em até seis meses após o infarto
  • Modelo foi treinado com dados de mais de 1 milhão de pacientes na Europa
  • Ferramenta pode apoiar decisões mais personalizadas em cardiologia oncológica

Uma nova ferramenta baseada em inteligência artificial promete mudar a forma como médicos avaliam e tratam pacientes com câncer que sofrem infarto.

Batizado de ONCO-ACS, o modelo foi desenvolvido por uma equipe internacional e usa dados clínicos combinados com informações específicas do câncer para estimar riscos graves nos meses seguintes ao evento cardíaco.

Publicado em janeiro de 2026 na revista científica The Lancet, o estudo aborda uma lacuna histórica da medicina: a falta de ferramentas adequadas para orientar decisões clínicas em um dos grupos mais complexos e vulneráveis do sistema de saúde.

Uma IA pensada para uma população ignorada

Pacientes com câncer que sofrem infarto costumam ficar fora de grandes estudos clínicos, apesar de apresentarem riscos muito superiores à média.

O ONCO-ACS foi criado exatamente para esse cenário, incorporando variáveis relacionadas ao tipo de tumor, estágio da doença e histórico oncológico junto a dados tradicionais da cardiologia.

Segundo o pesquisador Florian A. Wenzl, da University of Leicester, esse grupo sempre foi um dos mais difíceis de tratar, mas raramente recebeu atenção proporcional da pesquisa clínica.

Resultados revelam um prognóstico alarmante

A análise incluiu dados de pacientes da Inglaterra, Suécia e Suíça, com mais de 47 mil pessoas diagnosticadas com câncer. Os números chamam atenção: quase um terço morreu em até seis meses após o infarto, enquanto uma parcela significativa sofreu hemorragias graves ou novos eventos cardiovasculares, como AVC ou outro ataque cardíaco.

Esses resultados reforçam a necessidade de abordagens mais sofisticadas, capazes de equilibrar riscos de sangramento e trombose, algo especialmente delicado em pacientes oncológicos.

Caminho para uma medicina realmente personalizada

Para especialistas envolvidos no estudo, como Thomas F. Lüscher, do Imperial College London, o ONCO-ACS representa um avanço concreto rumo à personalização do tratamento.

A ferramenta pode ajudar médicos a decidir quem deve receber terapias invasivas e medicamentos mais agressivos e quem corre maior risco de efeitos adversos.

A pesquisa contou com financiamento da Cancer Research UK e da British Heart Foundation, além do apoio de programas de big data em saúde.

A expectativa agora é que o escore seja incorporado à prática clínica e também sirva de base para novos ensaios clínicos focados nesse público cada vez mais frequente e complexo.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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