Fakes gerados por IA inundam redes sociais durante guerra no Irã, dizem pesquisadores

Renê Fraga
4 min de leitura

Principais destaques

  • Mais de 110 conteúdos falsos gerados por IA sobre a guerra no Irã circularam nas redes nas primeiras semanas do conflito
  • Vídeos e imagens fabricadas somam milhões de visualizações em plataformas como X, TikTok e Facebook
  • Especialistas alertam que a desinformação sintética já se tornou uma nova arma estratégica em conflitos modernos

Uma nova frente de batalha está se consolidando paralelamente ao conflito militar envolvendo o Irã. Não se trata de tanques ou mísseis, mas de imagens e vídeos gerados por inteligência artificial que estão inundando as redes sociais e confundindo milhões de pessoas ao redor do mundo.

Pesquisadores identificaram mais de 110 publicações únicas criadas por IA nas duas primeiras semanas da guerra. Esses conteúdos incluem cenas completamente fabricadas, como supostos ataques de mísseis contra Tel Aviv, imagens de satélite de bases militares americanas destruídas e até registros falsos de soldados dos Estados Unidos capturados.

Embora altamente realistas, nenhum desses materiais representa acontecimentos reais. Ainda assim, eles se espalharam rapidamente nas plataformas digitais, acumulando milhões de visualizações e reforçando narrativas estratégicas ligadas ao conflito.

A nova era da guerra de informação

Especialistas afirmam que o fenômeno marca uma escalada sem precedentes na chamada desinformação sintética. Segundo Marc Owen Jones, professor associado de análise de mídia na Northwestern University no Catar, o volume atual de conteúdo gerado por IA supera qualquer outro observado em conflitos recentes.

Mesmo comparado ao início da guerra na Ucrânia, o cenário mudou drasticamente. As ferramentas de geração de imagens e vídeos evoluíram rapidamente, tornando muito mais fácil produzir conteúdos visualmente convincentes.

Pesquisadores também apontam que muitas dessas peças de desinformação promovem narrativas favoráveis ao Irã, amplificando supostos danos a aliados dos Estados Unidos e sugerindo que o custo da guerra seria maior para países do Golfo e Israel do que realmente é.

Imagens virais e narrativas fabricadas

Entre os conteúdos falsos mais populares está um vídeo que supostamente mostra o horizonte de Tel Aviv sendo bombardeado por mísseis. O material foi compartilhado em centenas de publicações e alcançou dezenas de milhões de visualizações.

Outro exemplo envolve uma imagem de satélite publicada pelo Tehran Times alegando mostrar danos em uma base naval dos Estados Unidos no Bahrein. A imagem foi analisada e identificada como gerada por inteligência artificial usando a tecnologia SynthID, sistema de marca d’água desenvolvido pelo Google.

Agências de verificação também confirmaram que imagens que mostrariam soldados da Força Delta capturados no Irã foram totalmente fabricadas por ferramentas de IA.

Plataformas digitais enfrentam dificuldades

A avalanche de conteúdo sintético também expôs fragilidades nas plataformas sociais. Uma investigação revelou que o chatbot Grok, integrado ao X, não apenas falhou ao identificar conteúdos falsos como chegou a produzir suas próprias imagens artificiais ao tentar verificar informações.

Em um dos casos analisados, o sistema interpretou erroneamente a localização e a data de um vídeo e gerou uma imagem falsa para sustentar sua análise equivocada.

Diante da situação, o X anunciou novas medidas: criadores que publicarem vídeos de guerra gerados por IA sem identificação poderão ser suspensos do programa de monetização por até 90 dias. Mesmo assim, especialistas consideram que as ferramentas atuais de moderação ainda são insuficientes para lidar com a velocidade da desinformação.

Segundo pesquisadores, o maior desafio está no fato de que os deepfakes estão cada vez mais realistas. Para grande parte das pessoas, distinguir entre conteúdo real e artificial já se tornou praticamente impossível.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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