Principais destaques
- Pesquisa indica que chatbots populares de IA podem recomendar dietas com cerca de 700 calorias a menos por dia para adolescentes
- Planos alimentares gerados por IA apresentaram desequilíbrio significativo de macronutrientes
- Especialistas alertam que déficits calóricos nessa fase podem prejudicar crescimento, hormônios e saúde metabólica
Um estudo recente publicado na revista científica Frontiers in Nutrition levantou um alerta importante sobre o uso de inteligência artificial em orientações alimentares.
Pesquisadores descobriram que alguns dos chatbots mais populares do mundo estão gerando planos alimentares potencialmente inadequados para adolescentes, com redução significativa de calorias em comparação às recomendações de nutricionistas profissionais.
A análise revelou que essas ferramentas de IA podem sugerir dietas com um déficit médio de aproximadamente 695 calorias por dia. Na prática, isso equivale a pular uma refeição inteira diariamente. Para adolescentes em fase de crescimento, essa diferença pode ter consequências relevantes para a saúde.
Como o estudo avaliou os chatbots
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Atlas de Istambul, na Turquia. O grupo solicitou a cinco ferramentas populares de inteligência artificial que criassem planos alimentares de três dias para quatro perfis hipotéticos de adolescentes de 15 anos com sobrepeso ou obesidade.
Entre as plataformas analisadas estavam ChatGPT-4o, Gemini 2.5 Pro, Claude 4.1, Bing Chat-5GPT e Perplexity. Ao todo, foram gerados 60 planos alimentares diários.
Esses planos foram comparados com versões elaboradas por um nutricionista especializado em saúde adolescente. O resultado mostrou que, em média, as ferramentas de IA subestimaram as necessidades energéticas diárias em quase 700 calorias.
Segundo a pesquisadora principal do estudo, Ayşe Betül Bilen, seguir dietas tão restritivas durante a adolescência pode trazer efeitos negativos importantes. Entre eles estão impacto no crescimento, alterações metabólicas e desenvolvimento de comportamentos alimentares pouco saudáveis.
Desequilíbrio na distribuição de nutrientes
Além da redução calórica, os pesquisadores observaram outro problema relevante: a proporção de macronutrientes nos planos gerados pelas inteligências artificiais estava distante das recomendações nutricionais.
Nos cardápios produzidos pelos chatbots, as proteínas representavam entre 21% e 24% da ingestão energética total, enquanto as gorduras chegavam a 41% a 45%. Já os carboidratos apareciam em proporções menores, entre 32% e 36%.
As recomendações da Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos são diferentes. Para adolescentes, o ideal é que 45% a 50% das calorias venham de carboidratos, 30% a 35% de gorduras e entre 15% e 20% de proteínas.
Essa distorção pode impactar não apenas o consumo de energia, mas também o funcionamento adequado do organismo durante uma fase em que o corpo ainda está em desenvolvimento.
Impactos potenciais no crescimento e nos hormônios
Especialistas independentes que analisaram os resultados também demonstraram preocupação. A nutricionista Taiya Bach, da Universidade de Wisconsin-Madison, destacou que a adolescência é um dos períodos mais intensos de crescimento humano.
Mesmo adolescentes com sobrepeso continuam precisando de energia suficiente para sustentar processos biológicos essenciais, como desenvolvimento ósseo, produção hormonal e maturação corporal.
Outros especialistas alertam que déficits calóricos elevados podem afetar atletas jovens de forma ainda mais significativa. Em meninas, por exemplo, isso pode contribuir para irregularidades ou ausência do ciclo menstrual. Em meninos, pode ocorrer redução na produção de testosterona.
Por que os modelos de IA cometem esses erros
Segundo os autores do estudo, parte do problema está na forma como os modelos de inteligência artificial são treinados. Em vez de priorizar precisão clínica, essas ferramentas costumam ser projetadas para gerar respostas que pareçam plausíveis e úteis ao usuário.
Isso significa que os chatbots podem se basear em padrões alimentares populares ou tendências de dieta encontradas em grandes volumes de dados online, em vez de integrar recomendações médicas específicas para cada faixa etária.
Por esse motivo, os pesquisadores defendem que sistemas de IA devem ser utilizados apenas como ferramentas complementares, nunca como substitutos do aconselhamento profissional.
Na adolescência, fase marcada por crescimento acelerado e desenvolvimento cognitivo, orientações nutricionais inadequadas podem trazer riscos duradouros. A conclusão do estudo reforça um ponto importante: quando o assunto é saúde alimentar de jovens, o acompanhamento de profissionais qualificados continua sendo essencial.
