Estetoscópio com inteligência artificial revoluciona a detecção de doenças nas válvulas do coração

Renê Fraga
4 min de leitura

Principais destaques

  • Um estetoscópio digital com inteligência artificial mais que dobrou a detecção de doenças valvares cardíacas moderadas a graves em exames de rotina.
  • A tecnologia atingiu sensibilidade acima de 92%, contra cerca de 46% da ausculta tradicional.
  • Apesar do ganho diagnóstico, o método com IA apresentou mais resultados falso-positivos.

Um novo estudo americano publicado no European Heart Journal – Digital Health mostra que a inteligência artificial pode mudar de forma significativa a maneira como doenças cardíacas são identificadas na atenção primária.

Pesquisadores observaram que um estetoscópio digital equipado com IA conseguiu identificar mais que o dobro de casos de doenças das válvulas do coração quando comparado ao estetoscópio tradicional usado no dia a dia clínico.

A pesquisa analisou o desempenho do dispositivo em situações reais de atendimento, trazendo dados relevantes para médicos e sistemas de saúde que lidam com populações envelhecidas e com alto risco cardiovascular.

Como o estudo foi conduzido

O estudo acompanhou 357 pacientes com 50 anos ou mais, todos com fatores de risco para doenças cardíacas, atendidos em três unidades de atenção primária. A idade média dos participantes foi de 70 anos, com predominância de mulheres.

Cada paciente passou por dois tipos de avaliação. Médicos realizaram a ausculta tradicional, enquanto coordenadores do estudo utilizaram o estetoscópio digital com inteligência artificial.

O resultado mostrou que a tecnologia com IA alcançou 92,3% de sensibilidade para identificar padrões sonoros associados a doenças valvares moderadas ou graves. Já a ausculta convencional ficou em 46,2%.

Mais diagnósticos, mas com ressalvas

O sistema baseado em IA identificou 12 casos de doença valvar que não haviam sido diagnosticados anteriormente. A avaliação tradicional detectou apenas seis.

Por outro lado, a especificidade do dispositivo com IA foi menor, cerca de 86,9%, enquanto o método clássico chegou a 95,6%. Isso indica que a tecnologia pode apontar mais suspeitas que depois não se confirmam.

Segundo a autora sênior do estudo, a cardiologista Rosalie McDonough, a doença valvar é comum em idosos e muitas vezes só é percebida quando os sintomas já estão avançados. Para ela, a IA ajuda a destacar alterações que podem passar despercebidas em ambientes clínicos movimentados.

Um apoio ao julgamento clínico

O funcionamento do estetoscópio digital envolve a gravação de sons cardíacos de alta fidelidade, analisados por algoritmos de aprendizado de máquina treinados para reconhecer padrões típicos de doenças valvares.

Diferente da ausculta tradicional, que depende apenas da audição e da experiência do profissional, o sistema oferece uma camada adicional de análise.

Os pesquisadores reforçam que a tecnologia não substitui o médico. O objetivo é servir como apoio, ajudando a decidir quais pacientes devem ser encaminhados para exames mais detalhados, como a ecocardiografia.

Diante dos resultados, o grupo defende novos estudos em populações mais diversas e em outros contextos clínicos, para entender melhor o impacto da inteligência artificial no diagnóstico precoce de doenças cardíacas.

Seguir:
Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
Nenhum comentário