Empresas voltam atrás: inteligência artificial ainda não é suficiente para substituir humanos

Renê Fraga
4 min de leitura

Principais destaques:

  • Empresas estão readmitindo profissionais que haviam sido demitidos, mostrando que a IA ainda não substitui humanos como muitos imaginaram.
  • Custos e complexidades de implementação da inteligência artificial estão levando líderes corporativos a repensar suas estratégias.
  • Pesquisas revelam que 95% das organizações ainda não viram retorno financeiro real sobre seus investimentos em IA.

Nos últimos meses, um fenômeno curioso vem sendo detectado no mercado de trabalho global: o retorno de funcionários que haviam sido dispensados no auge da “hype” da inteligência artificial.

Segundo novos dados da empresa de análise de força de trabalho Visier, divulgados à Axios, companhias ao redor do mundo estão, em silêncio, chamando de volta antigos colaboradores e isso diz muito sobre o momento atual da IA corporativa.


A volta dos que não foram: por que empresas estão readmitindo

O levantamento da Visier analisou 2,4 milhões de funcionários em 142 empresas internacionais e descobriu que cerca de 5,3% dos profissionais demitidos acabam sendo recontratados pela mesma organização.

Embora esse número tenha se mantido estável por anos, ele começa a subir novamente refletindo o choque entre as expectativas e a realidade da automação.

A principal conclusão: a IA, por enquanto, não está substituindo empregos inteiros, mas apenas partes de processos. Isso deixa as empresas em um dilema: entre reduzir custos com automação e manter a expertise humana essencial para fazer essas tecnologias funcionarem de fato.

Andrea Derler, pesquisadora principal da Visier, descreve a situação com clareza: “A inteligência artificial serviu como uma justificativa conveniente para cortes, mas ainda não é totalmente uma justificativa real.”


O custo invisível da automação

A transformação digital baseada em IA exige um investimento alto em infraestrutura — desde hardware e sistemas de dados até segurança e capacitação interna.

Esses custos, na prática, acabam sendo muito maiores do que o planejado inicialmente.

Muitos executivos, segundo Derler, simplesmente não tiveram tempo de avaliar o retorno real dessas iniciativas.

O resultado? Gestores estão concluindo que readmitir profissionais experientes pode ser mais eficiente e barato do que insistir em automatizações complexas e imaturas.

Esse raciocínio é reforçado por pesquisas do MIT, que apontam que 95% das organizações ainda não obtiveram ganhos financeiros concretos com o uso da IA.

Steve Sosnick, estrategista da Interactive Brokers, resume: “Talvez nem todo esse dinheiro esteja sendo gasto de maneira inteligente.”


O dilema das demissões: economia ilusória

Além disso, novas análises mostram que cortar pessoal pode ser uma economia apenas aparente.

A plataforma Orgvue, especializada em planejamento de força de trabalho, estima que as empresas gastem US$ 1,27 para cada US$ 1 economizado em demissões, devido a custos indiretos como rescisões, seguros e perda de produtividade.

O cenário aponta para uma contradição comum: decisões tomadas para agradar investidores no curto prazo podem criar problemas estratégicos no longo prazo.

Ao tentar simplificar as operações por meio da IA, muitas companhias descobriram que o custo de substituir o humano ainda é, ironicamente, humano demais.

E, no fim, as mesmas organizações que abriram mão do talento agora correm para tê-lo de volta em um movimento que revela não apenas a limitação das máquinas, mas também a força da experiência humana no centro da revolução tecnológica.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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