Disney tropeça nos bastidores ao tentar implementar inteligência artificial

Renê Fraga
4 min de leitura

🎬 Principais destaques:

  • Disney enfrenta dificuldades internas para integrar IA às suas produções, com projetos cancelados por preocupações legais e sindicais.
  • Tentativas de clonar digitalmente atores como Dwayne Johnson acabaram engavetadas por impasses contratuais.
  • Ao mesmo tempo em que tenta usar IA, a empresa processa startups por uso indevido de sua propriedade intelectual.

Enquanto muitos temem que a inteligência artificial vá dominar Hollywood e substituir profissionais humanos, a realidade nos bastidores parece ser bem diferente e até um pouco cômica.

De acordo com uma apuração do Wall Street Journal, a Disney, um dos maiores nomes do entretenimento mundial, está enfrentando sérios obstáculos para integrar IA às suas produções.

A gigante chegou a criar uma unidade de negócios dedicada exclusivamente à tecnologia, mas esbarrou em questões jurídicas, resistência de sindicatos e até em incoerências internas.

O resultado: projetos arquivados, contratos desfeitos e uma reputação que pode ter saído um pouco arranhada nessa aventura tecnológica.

A tentativa frustrada de clonar “The Rock” com IA

Um dos casos mais notórios envolve o ator Dwayne “The Rock” Johnson. Para o remake live-action de “Moana”, a Disney queria usar IA para aplicar o rosto do ator em cenas gravadas com seu primo, Tanoai Reed, que tem estrutura física semelhante.

Johnson até aprovou a ideia, mas os advogados da empresa travaram: como proteger os dados do ator? Quem seria o verdadeiro dono daquela imagem gerada por IA?

Em um estúdio conhecido por zelar com unhas e dentes por seus personagens e marcas, essas dúvidas sobre propriedade intelectual são um pesadelo.

Mesmo após 18 meses de negociações com a empresa de IA Metaphysic, o projeto não avançou. O conteúdo foi descartado e não aparecerá no filme que chega aos cinemas no próximo verão.

A cena de “Tron: Ares” que nunca existiu

Outro exemplo envolve a próxima sequência de “Tron”, batizada de Tron: Ares. Segundo fontes internas, os executivos propuseram uma cena onde o personagem Bit, um pequeno assistente digital, seria criado por IA em tempo real na tela, com voz humana.

Apesar da ideia futurista, o plano foi abandonado por um motivo muito mais pragmático: a Disney estava em plena negociação com os sindicatos de roteiristas e atores.

Nesse cenário, qualquer deslize poderia gerar uma crise pública. Não era o momento ideal para se envolver em experimentos secretos com IA enquanto os próprios profissionais da indústria protestavam contra seu uso indiscriminado.

Usar IA e processar quem usa: a contradição da Disney

E como se já não bastasse o caos interno, a Disney ainda precisa lidar com a ironia de estar processando quem tenta fazer exatamente o que ela mesma está explorando.

Em junho, a empresa se uniu à Universal Studios para processar a startup Midjourney, acusando-a de usar imagens protegidas por direitos autorais para treinar seu gerador de imagens com IA.

No processo, a Disney chamou a empresa de “parasita do direito autoral” e “buraco sem fundo de plágio”.

Essa dualidade expõe o dilema central: como a Disney pode usar IA para inovar, sem pisar nos próprios princípios e sem destruir os laços com os profissionais que ainda precisa para produzir magia?

De acordo com Horacio Gutierrez, chefe jurídico da empresa, o objetivo é “permitir que nossos criadores usem as melhores ferramentas de IA disponíveis, sem comprometer o futuro da companhia”.

Seguir:
Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
Nenhum comentário