Cientistas usam Dungeons & Dragons para medir como humanos e IA podem colaborar melhor

Renê Fraga
4 min de leitura

Principais destaques

  • Pesquisadores estão usando Dungeons & Dragons como laboratório para testar planejamento estratégico e cooperação entre inteligências artificiais e humanos.
  • Modelos de linguagem diferentes tiveram desempenhos variados em combate, uso de recursos e interpretação de personagens.
  • O estudo ajuda a entender como a IA pode atuar de forma autônoma e colaborativa em cenários complexos do mundo real.

Pesquisadores de inteligência artificial encontraram um campo de testes inusitado, mas extremamente rico, para avaliar colaboração entre humanos e máquinas.

O clássico jogo de RPG de mesa Dungeons & Dragons está sendo usado para analisar como modelos de IA planejam ações de longo prazo, seguem regras rígidas e trabalham em equipe, tanto com outras IAs quanto com pessoas.

O estudo foi apresentado na conferência NeurIPS 2025 e parte da ideia de que D&D combina criatividade narrativa com estruturas bem definidas. Essa mistura cria um ambiente ideal para observar decisões estratégicas, comunicação por diálogo e adaptação a situações imprevisíveis.

Um jogo complexo como campo de testes para a IA

Nos experimentos, os modelos podiam assumir diferentes papéis do jogo, incluindo o de Dungeon Master, responsável por narrar a história e controlar os inimigos, e o de heróis que participam das batalhas. Em alguns cenários, todos os personagens eram controlados por IAs. Em outros, havia combinações entre modelos de linguagem e jogadores humanos.

Para manter o foco na estratégia, os pesquisadores não simularam campanhas completas. Eles usaram apenas encontros de combate retirados da aventura clássica “Lost Mine of Phandelver”. Cada simulação durava dez turnos e variava conforme o nível de dificuldade e o poder dos personagens, o que permitiu comparar decisões táticas em situações mais simples e mais desafiadoras.

Desempenho, recursos e tomada de decisão

Três modelos de linguagem participaram dos testes. Em cenários mais difíceis, um deles se destacou por usar seus recursos de forma mais agressiva, gastando habilidades e poderes especiais no momento certo para garantir a vitória. Outros foram mais conservadores ou tiveram dificuldade para coordenar ações eficientes em grupo.

Esse tipo de análise vai além do jogo. Segundo os pesquisadores, as mesmas habilidades testadas em D&D são essenciais em aplicações reais, como otimização de cadeias de suprimento, resposta a desastres e sistemas de busca e resgate com múltiplos agentes autônomos.

Interpretação de papéis e interação com humanos

Além da eficiência em combate, o estudo avaliou como as IAs se mantinham “no personagem”. Os cientistas criaram uma métrica específica para medir a qualidade da atuação, observando se o modelo falava e agia de acordo com o papel assumido.

Algumas IAs repetiam falas curtas e diretas, enquanto outras adaptavam melhor o tom de voz ao tipo de personagem ou criatura, como paladinos devotos ou druidas ligados à natureza. Curiosamente, quando controlavam monstros, os modelos criavam personalidades distintas, com provocações e falas que tornavam os confrontos mais vivos e imprevisíveis.

No futuro, a equipe pretende expandir o sistema para campanhas completas, incluindo narrativa fora do combate. O objetivo é testar ainda mais a criatividade, a memória e a capacidade de improviso das IAs em interação contínua com pessoas.

Para os pesquisadores, entender esse tipo de colaboração é essencial para construir sistemas confiáveis que consigam atuar sozinhos por longos períodos sem perder coerência.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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