Principais destaques
- O Chile apresentou o Latam-GPT, primeiro modelo de IA de código aberto criado na América Latina.
- A iniciativa busca reduzir vieses culturais comuns em sistemas desenvolvidos nos Estados Unidos.
- O projeto prioriza relevância regional, idiomas locais e futura inclusão de línguas indígenas.
O Chile deu um passo simbólico e estratégico no cenário global de inteligência artificial ao lançar o Latam-GPT, um modelo aberto criado para representar melhor a diversidade cultural, histórica e linguística da América Latina.
O projeto é liderado pelo Centro Nacional de Inteligência Artificial, o CENIA, e nasce como resposta direta ao domínio de sistemas treinados majoritariamente com dados do eixo Estados Unidos e Europa.
Treinado com mais de oito terabytes de conteúdo regional, volume comparável a milhões de livros, o Latam-GPT foi concebido para entender sotaques, contextos sociais, referências culturais e formas de expressão que costumam ser sub-representadas em modelos globais como o ChatGPT ou o Gemini.
Uma IA pensada a partir da América Latina
Segundo o ministro chileno de Ciência, Tecnologia, Conhecimento e Inovação, Aldo Valle, o objetivo central do Latam-GPT é enfrentar estereótipos repetidos por sistemas de IA.
Ele cita exemplos em que representações culturais simplificadas acabam reforçando visões distorcidas sobre os países da região.
A proposta, portanto, não é apenas técnica, mas também política e cultural. A ideia é evitar que a América Latina seja apenas consumidora de tecnologias externas e passe a construir modelos alinhados às suas próprias realidades.
Para o CENIA, depender exclusivamente de IA estrangeira pode significar, a longo prazo, a erosão de referências culturais locais.
Código aberto e foco em aplicações locais
Diferentemente de soluções proprietárias, o Latam-GPT adota uma arquitetura de código aberto. Isso permite que empresas, universidades e órgãos públicos adaptem o modelo para usos específicos, como atendimento ao cliente, serviços governamentais e educação.
O diretor do CENIA, Álvaro Soto, destaca que até hoje os dados latino-americanos aparecem apenas de forma marginal nos grandes modelos globais.
Ao oferecer acesso gratuito ao Latam-GPT, o projeto busca estimular um ecossistema regional de inovação, no qual a IA seja moldada conforme necessidades locais e não apenas importada pronta.
Colaboração regional com recursos limitados
O desenvolvimento do Latam-GPT contou com um orçamento aproximado de 550 mil dólares, financiado principalmente pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina e por recursos do próprio CENIA.
Instituições de oito países participaram da construção do modelo, incluindo Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Peru e Uruguai.
Especialistas reconhecem que, com esse orçamento, o Latam-GPT não concorre em escala com gigantes globais. Ainda assim, os idealizadores reforçam que a meta não é superar modelos líderes em tamanho, mas sim entregar uma IA culturalmente relevante.
Há também planos de expansão, como a incorporação de línguas indígenas e a migração do treinamento para um supercomputador da Universidade de Tarapacá.
