Cansados da inteligência artificial, jovens adotam um estilo de vida analógico em 2026

Renê Fraga
4 min de leitura

Principais destaques:

  • Um movimento crescente aposta em hobbies offline e rotinas sem telas como resposta ao excesso de IA.
  • Artesanato, leitura e objetos físicos voltam ao centro do cotidiano, impulsionados pela busca por bem-estar.
  • A tendência não rejeita a tecnologia, mas propõe mais controle sobre o tempo e os dados pessoais.

Cada vez mais cercadas por assistentes virtuais, dispositivos inteligentes e conteúdos gerados por algoritmos, muitas pessoas estão escolhendo desacelerar.

Em 2026, o chamado estilo de vida analógico ganha força como um contraponto à hiperconectividade e ao cansaço digital. Diferente de um simples detox tecnológico, a proposta envolve mudanças mais duradouras na forma de viver, consumir e se divertir.

Não é fácil medir o tamanho exato do fenômeno, mas os sinais estão por toda parte. A rede de artes e artesanato Michael’s registrou um aumento expressivo na busca por hobbies analógicos, com crescimento acelerado na venda de kits guiados e materiais de tricô. Atividades antes vistas como passatempo de gerações mais velhas agora conquistam jovens que buscam fugir do doomscrolling e da ansiedade constante.

O retorno do fazer com as próprias mãos

O artesanato virou uma espécie de refúgio emocional, especialmente no período pós-pandemia. Para muita gente, costurar, tricotar ou desenhar é uma forma concreta de descansar a mente e retomar o controle do tempo. O ato de criar algo físico contrasta com a lógica digital, onde tudo é rápido, repetitivo e frequentemente mediado por inteligência artificial.

Essa mudança também carrega um aspecto cultural. Há a sensação de que a internet deixou de ser um espaço de prazer para se tornar um ambiente voltado quase exclusivamente ao lucro e à performance. O analógico surge, então, como uma tentativa de resgatar o prazer simples de fazer algo sem métricas, curtidas ou algoritmos.

Menos telas, mais presença

Adotar esse estilo de vida não significa abandonar completamente a tecnologia. Muitas pessoas fazem ajustes pontuais, como trocar playlists por um iPod antigo, usar câmeras analógicas ou substituir o celular por um despertador físico. Pequenas escolhas que ajudam a reduzir a dependência das telas no dia a dia.

Segundo pesquisadores, a fadiga com conteúdos gerados por IA também pesa nessa decisão. Avriel Epps, pesquisadora de IA da University of California Riverside, aponta que a repetição e a falta de originalidade de muitos conteúdos automatizados tornam a experiência digital cansativa. Para alguns, o analógico é uma forma de limitar não só o consumo de informação, mas também a coleta de dados pessoais.

O impacto no cotidiano urbano

Experiências simples, como caminhar sem olhar o celular ou participar de encontros presenciais, ganham novo significado. Em bibliotecas e centros comunitários, círculos de tricô e leitura reúnem pessoas de diferentes idades em ambientes livres de telas. O tempo parece render mais quando não é fragmentado por notificações constantes.

Para quem experimenta essa rotina, a sensação de realização vem de pequenas conquistas: terminar um livro, escrever uma carta, aprender um novo ponto de tricô. Em um mundo dominado por telas azuis e respostas automáticas, o analógico se transforma em um gesto de autonomia e cuidado consigo mesmo.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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