🧠 Principais Destaques
- Ferramentas de IA como Gemini, MagicSchool e Khanmigo estão ajudando professores a economizar tempo, mas podem influenciar negativamente o aprendizado sem supervisão adequada.
- Relatório da Common Sense Media aponta riscos moderados, como vieses raciais e falta de precisão em planos educacionais personalizados.
- Apenas 32% dos professores receberam treinamento formal para usar essas ferramentas, o que reforça a importância de políticas claras e capacitação.
O uso de ferramentas de inteligência artificial para auxiliar professores tem crescido rapidamente, prometendo mais agilidade nas tarefas diárias e melhoria no desempenho dos alunos.
No entanto, um novo relatório da Common Sense Media, organização sem fins lucrativos voltada à educação e tecnologia, acende um alerta importante: essas IAs, quando usadas sem supervisão, podem trazer riscos consideráveis para professores e estudantes.
A análise avaliou quatro plataformas populares no ambiente educacional: Khanmigo (da Khan Academy), MagicSchool, Curipod e Gemini (da Google Classroom).
O estudo classificou o risco dessas ferramentas como “moderado”, mas com potencial de impacto real no processo de ensino-aprendizagem, especialmente quando utilizadas como substitutas — e não complementos — da experiência docente.
A promessa: menos tarefas repetitivas e mais tempo para ensinar
As ferramentas de IA voltadas ao ensino têm ganhado destaque por automatizar atividades como planejamento de aulas, correções, geração de quizzes e até comunicação com pais e alunos.
Diferentemente de IAs generalistas como o ChatGPT, essas plataformas são desenvolvidas especificamente para o contexto escolar.
Segundo uma pesquisa da Gallup, cerca de dois terços dos professores nos Estados Unidos utilizaram IA no ano letivo 2024-2025, economizando até seis horas semanais em tarefas administrativas.
Essa economia de tempo, porém, vem com um custo que ainda está sendo compreendido.
Como aponta Robbie Torney, diretor sênior de programas de IA da Common Sense Media:
“Essas ferramentas são populares porque funcionam. Mas é justamente essa eficiência que pode representar um risco quando não há supervisão.”
O perigo: influências invisíveis e vieses prejudiciais
O relatório mostra que, embora as ferramentas sejam práticas, elas podem reforçar estereótipos, apresentar informações imprecisas ou até mesmo responder de forma diferente a estudantes de acordo com a raça.
Em um dos testes realizados pela Common Sense, foram solicitados planos de comportamento para 50 alunos brancos e 50 alunos negros.
Os resultados revelaram que os alunos brancos recebiam orientações mais positivas e menos críticas do que os alunos negros — um exemplo claro de viés algorítmico.
Outro ponto crítico é o uso das ferramentas para criar documentos essenciais, como Planos de Educação Individualizados (IEPs) para estudantes com necessidades especiais.
Mesmo sem dados suficientes, as plataformas geram esses documentos, o que pode comprometer seriamente a qualidade da educação personalizada.
“Quem já participou de uma reunião de IEP sabe que isso exige muito mais do que um clique — envolve dados de observação, testes, conversas com pais, alunos e professores”, explica Torney.
Caminho do meio: IA como suporte, não substituição
Apesar dos riscos, o relatório não descarta os benefícios das IAs em sala de aula. Pelo contrário, defende que as ferramentas podem ser aliadas poderosas, desde que usadas com senso crítico, formação adequada e políticas bem definidas.
A recomendação da Common Sense Media é clara: as escolas e redes de ensino devem estabelecer diretrizes, treinar os professores e adotar processos de avaliação constantes das ferramentas utilizadas.
Hoje, 68% dos professores ainda não receberam qualquer tipo de capacitação para o uso de IA, e metade aprendeu sozinha, segundo a Gallup.
Torney finaliza com um apelo realista:
“Não é preciso ter uma política perfeita para começar. Mas é urgente dar orientações claras sobre o que pode ou não ser feito com IA. Como ex-professor, sei do potencial dessas ferramentas — mas elas devem ser usadas com consciência.”
