Anthropic: IA cresce em ritmo histórico, mas adotações seguem desiguais pelo mundo

Renê Fraga
5 min de leitura

Principais destaques:

  • Adoção acelerada: Em apenas dois anos, o uso de IA no trabalho nos EUA dobrou, superando o ritmo de tecnologias históricas como internet e computadores pessoais.
  • Concentração geográfica: Países mais ricos e tecnologicamente avançados lideram o uso da IA, enquanto economias emergentes ainda apresentam baixa penetração.
  • Mudança no trabalho: Empresas e usuários individuais utilizam Claude de maneiras diferentes — negócios tendem a automatizar mais, enquanto pessoas exploram usos colaborativos e criativos.

A velocidade inédita da IA no mundo do trabalho

O novo Anthropic Economic Index, divulgado em 15 de setembro de 2025, mostra um retrato vívido de como a Inteligência Artificial está sendo incorporada ao cotidiano de trabalhadores e empresas em uma escala nunca vista.

Nos Estados Unidos, 40% dos empregados já usam IA em suas atividades diárias, um salto impressionante em relação aos 20% registrados em 2023. Para comparação, a internet precisou de cinco anos para alcançar taxas de adoção semelhantes, e a eletrificação rural levou décadas até se espalhar.

Essa expansão meteórica se explica por três fatores centrais:

  1. Versatilidade — a IA já resolve uma variedade enorme de tarefas;
  2. Infraestrutura pronta — pode ser integrada em sistemas digitais existentes sem grandes investimentos;
  3. Facilidade de uso — basta escrever ou falar, sem necessidade de treinamento técnico avançado.

Estamos diante de uma tecnologia que não apenas acompanha os passos de inovações do século passado, mas redefine a velocidade do que significa “transformação digital”.


O mapa desigual da adoção da IA

Um dos pontos mais marcantes do relatório é a desigualdade global na utilização do Claude, o modelo da Anthropic.
O índice criado pela pesquisa, chamado Anthropic AI Usage Index (AUI), revela que:

  • Singapura e Israel são líderes, usando a IA até sete vezes mais do que sua proporção populacional sugeriria.
  • Canadá, Austrália e Coreia do Sul também aparecem entre os campeões de uso por habitante.
  • Índia, Indonésia e Nigéria, por outro lado, ainda usam Claude muito menos que a média global.

Nos EUA, os dados mostram que Washington, DC, e Utah estão à frente até da Califórnia em termos de uso proporcional.

E o mais curioso: os padrões variam de acordo com cada economia local na Flórida, Claude é usado principalmente em finanças, enquanto na Califórnia o foco está em TI, e em DC, em documentos e aplicações de carreira.

Essa concentração acende alertas: se os ganhos de produtividade permanecerem restritos a regiões e setores já favorecidos, a IA pode acabar ampliando desigualdades globais e internas, em vez de reduzir disparidades.


Empresas: menos colaboração, mais automação

Outro capítulo importante do relatório analisa o uso corporativo via API, onde empresas integram Claude diretamente em seus processos. Aqui, a diferença de comportamento é gritante em relação ao uso individual:

  • 77% das interações das empresas com Claude são automatizadas, contra metade no uso pessoal.
  • As tarefas mais comuns entre empresas são programação, depuração de sistemas e rotinas administrativas.
  • Curiosamente, os dados indicam que o custo por tarefa não é a principal barreira: negócios tendem a priorizar tarefas que realmente agregam valor, mesmo que custem mais.

Mas há um ponto de atenção: para tarefas mais sofisticadas, os modelos precisam de contexto detalhado, como bases de dados organizadas e informações internas bem estruturadas.

Ou seja, muitas empresas só conseguirão aproveitar o potencial da IA se investirem em modernização de dados e transformação organizacional.


O que isso significa para o futuro

O retrato traçado pela Anthropic sugere que estamos em um momento decisivo.

Por um lado, a IA está democratizando o acesso à automação e inteligência, com ganhos imediatos em ciência, educação e programação.

Por outro, existe o risco de que os frutos dessa revolução se concentrem em países ricos, grandes empresas e profissionais já qualificados.

Esse cenário coloca um dilema nas mãos de governos, empresas e sociedade civil:

  • Vamos investir para expandir o acesso e reduzir o abismo digital?
  • Ou veremos a IA acentuar a distância entre quem pode aproveitar seus benefícios e quem fica para trás?

Uma coisa é certa: essas escolhas vão moldar não apenas o mercado de trabalho, mas também a distribuição de riqueza e oportunidades ao longo das próximas décadas.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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