Albânia nomeia ministra de Inteligência Artificial para combater corrupção

Renê Fraga
4 min de leitura

Principais destaques:

  • Inovação inédita: Albânia é o primeiro país a nomear um “ministro” virtual, criado por inteligência artificial.
  • Combate à corrupção: A IA cuidará de todos os processos de licitação pública, um dos pontos mais vulneráveis à fraude no país.
  • Dúvidas e polêmica: Apesar do otimismo do governo, parte da população teme que mesmo a tecnologia não escape à corrupção local.

Um passo ousado rumo à governança digital

A Albânia surpreendeu o mundo ao nomear uma ministra de inteligência artificial para assumir a delicada tarefa de supervisionar os processos de compras públicas do Estado.

A iniciativa, apresentada pelo primeiro-ministro Edi Rama, é vista como uma tentativa histórica de enfrentar décadas de escândalos de corrupção que têm manchado o país e atrasado seu caminho em direção à União Europeia.

A ministra virtual recebeu o nome de Diella, que significa “sol” em albanês. Diferente de qualquer outro membro do gabinete, ela não existe fisicamente.

Diella é um sistema de IA concebido para controlar e atribuir todas as licitações em que o governo contrata empresas privadas — um setor que há anos é associado a práticas ilícitas e lavagem de dinheiro.

Segundo Rama: “Diella é a nossa chance real de garantir que 100% dos processos de compras públicas estejam livres de corrupção.”


A tecnologia por trás de Diella

Essa não é a primeira vez que Diella entra em cena. O sistema foi inicialmente lançado meses antes, dentro da plataforma digital e-Albania, que centraliza serviços públicos online.

Lá, a assistente de IA já desempenhava funções práticas: ajudava cidadãos e empresas a emitir documentos oficiais por meio de comandos de voz, entregando certidões e contratos com validação eletrônica, o que reduzia atrasos burocráticos.

Curiosamente, a personagem digital foi criada com visual inspirado nos trajes tradicionais albaneses, dando um ar culturalmente familiar ao robô. Essa escolha reforça a ideia de proximidade e identidade nacional, mesmo em um ambiente virtual.

Entretanto, o governo ainda não detalhou como será feita a supervisão humana sobre os algoritmos de Diella, nem quais mecanismos de segurança estarão ativos para prevenir manipulações no sistema. Esse silêncio levanta dúvidas em especialistas e críticos.


Para Edi Rama, a aposta é também simbólica: mostrar um país que deseja romper com práticas históricas de corrupção e conquistar a confiança da União Europeia até 2030, meta que muitos analistas consideram ambiciosa.

Na população, contudo, o sentimento é dividido. Nas redes sociais, alguns usuários reagiram com desconfiança:

“Até a Diella vai acabar corrompida na Albânia”, desabafou um internauta. Outro afirmou que o problema não está no sistema, mas nas pessoas: “Os roubos continuarão, só que agora vão culpar a Diella.”

Enquanto isso, o novo parlamento eleito em maio ainda se organiza, e não está claro se o governo conseguirá aprovar oficialmente sua equipe ministerial nos próximos dias, reforçando a incerteza política que acompanha essa decisão inédita.

Se Diella conseguirá inaugurar uma nova era de transparência ou se se tornará apenas mais um capítulo na turbulenta história política da Albânia, o tempo e a tecnologia dirão.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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