A internet está criando um “código de cobrança” para a IA

Renê Fraga
4 min de leitura

✨ Principais destaques:

  • Novo padrão de licenciamento na web: surge o Really Simple Licensing (RSL), que pode mudar como sites são remunerados pelo uso de seus dados em IA.
  • Controle para criadores e empresas: sites agora poderão definir valores, condições e até cobrar por cada vez que um robô de IA acessa ou referencia seus conteúdos.
  • Um movimento coletivo: grandes marcas como Reddit, Quora, Yahoo e wikiHow já aderiram, aumentando a pressão sobre empresas de IA para aceitar as novas regras.

O avanço da inteligência artificial trouxe benefícios inegáveis, mas também levantou uma questão delicada: quem paga a conta pelo uso de dados?.

Hoje, modelos de IA são treinados extraindo conteúdo de sites, fóruns, manuais e artigos, muitas vezes sem autorização ou remuneração justa para os criadores originais.

Para enfrentar esse desequilíbrio, surgiu o Really Simple Licensing (RSL), um padrão aberto de licenciamento que funciona como uma nova camada da internet.

Ele permite que qualquer site estabeleça regras claras para robôs de IA: quanto devem pagar, em que condições podem acessar conteúdos e até royalties por cada uso do material durante a geração de respostas.

Marcas de peso como Reddit, Medium, Yahoo, Quora, wikiHow e O’Reilly já aderiram. A ideia é criar um front coletivo que não dependa mais de negociações individuais e secretas entre empresas de mídia e gigantes da IA.


Como funciona o RSL: do “não entre” ao “pague para entrar”

O RSL se apoia em algo que já existe: o antigo arquivo robots.txt — ferramenta usada há décadas para dizer aos motores de busca quais páginas eles podem ou não rastrear.

A diferença é que antes era um simples “sim ou não”. Agora, com o RSL, os sites podem acrescentar condições como:

  • Assinatura de acesso: empresas de IA pagam mensalidades para vasculhar conteúdos.
  • Taxa por rastreamento: cada vez que um robô visita o site, há um custo.
  • Taxa por inferência: quando um modelo cita ou se inspira no conteúdo de um site ao responder a um usuário, o criador é compensado.

Essa evolução transforma o ato de “raspar dados” em uma relação de negócios mais justa, parecida com os sistemas de licenciamento musical, como o da ASCAP, que garante royalties a artistas.


O desafio: fazer a IA respeitar as regras

Apesar do potencial, um ponto crucial permanece: e se as empresas de IA simplesmente ignorarem o RSL?. Hoje, muitas já desrespeitam as diretrizes do robots.txt.

Por isso, o RSL Collective, organização que conduz o projeto, se aliou a empresas como a Fastly, que age como um “segurança de balada digital”. Só entra quem apresentar o “ID” de que concordou com o licenciamento.

Mas, diferentemente de estruturas fechadas como as oferecidas pelo Cloudflare, o RSL quer criar algo aberto, padronizado e escalável, capaz de sustentar novos modelos de negócio para a internet.

Ainda há dúvidas jurídicas, já que o treinamento de IA com dados públicos vive em uma “zona cinzenta legal”.

Contudo, com processos contra OpenAI, Amazon e outros gigantes já em andamento, o RSL pode se tornar a base para reivindicar um futuro mais equilibrado.


💡 O RSL não apenas cria um novo jeito de cobrar pelo uso de dados, mas simboliza uma tentativa maior da web de recuperar valor em um ecossistema dominado pela inteligência artificial.

Se funcionar, poderá marcar um antes e depois na forma como a IA é alimentada.

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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