A inteligência artificial do Google está matando os sites independentes?

Renê Fraga
5 min de leitura

📉 Principais destaques:

  • Google causou polêmica após afirmar em documentos judiciais que a “web aberta” estaria em rápido declínio.
  • A declaração foi corrigida, mas abriu espaço para um debate sobre queda de tráfego e perda de receita dos sites fora das “big techs”.
  • A disputa jurídica do Google com o Departamento de Justiça dos EUA pode redefinir o futuro da publicidade digital e impactar diretamente todo o ecossistema da web.

Nos últimos dias, uma frase específica vinda da gigante Google mexeu com o universo digital.

Em documentos apresentados no tribunal, a empresa indicou que a “web aberta” já estaria em “rápido declínio”.

Para quem acompanha as tensões entre big techs, reguladores e editores online, a afirmação soou como um possível “ato falho”, afinal, como defender a saúde da internet livre e ao mesmo tempo admitir sua deterioração?

Poucas horas depois, o Google recuou. Segundo a companhia, o que estaria em colapso não seria a web em si, mas o mercado de publicidade display na web aberta ou seja, os anúncios que aparecem em sites fora de plataformas fechadas como YouTube e Facebook.

Ainda assim, o estrago estava feito: veículos de mídia e analistas já avaliam esse episódio como revelador das tensões internas sobre o futuro do digital.


O que está em jogo no tribunal

Essa discussão não está acontecendo no vazio. Ela faz parte de um processo antitruste movido pelo Departamento de Justiça dos EUA contra o Google, iniciado em 2023.

Um juiz já decidiu que a empresa mantém monopólio ilegal em determinados segmentos de tecnologia de anúncios.

Agora, a reta final do julgamento pode obrigar a gigante a se desfazer de partes do seu império, como o AdX (bolsa de anúncios) e o DfP (servidor de anúncios).

Para se proteger, a estratégia do Google é clara: mostrar que a concorrência é saudável e que o mercado está mudando naturalmente, não porque a empresa esteja abusando de seu poder.

O ponto sensível foi justamente quando os advogados usaram “web aberta” e “publicidade da web aberta” como sinônimos, o que alimentou interpretações de que até a própria Google estaria admitindo decadência na internet livre.


O impacto da IA e a queda no tráfego dos sites

Por trás da disputa jurídica, existe outra preocupação ainda mais urgente: o papel da inteligência artificial nos buscadores.

Dados da Similarweb indicam que a taxa de “zero-clicks” (quando o usuário encontra sua resposta no Google sem clicar em nenhum site) saltou de 60% para 80% após o lançamento do Google AI Overviews.

Para os editores, isso é devastador: menos cliques significam menos audiência e, consequentemente, menos receita com anúncios.

Do lado do Google, a companhia insiste que o tráfego total se mantém “relativamente estável” e que a IA estaria até gerando “cliques de maior qualidade”.

Só que, até o momento, nenhum dado concreto foi aberto ao público para comprovar tal afirmação.


A web aberta está mesmo em risco?

Quando falamos em “web aberta”, falamos de todo um ecossistema de sites independentes, como blogs, portais de notícia e plataformas acessíveis sem login obrigatório.

É esse mosaico que mantém a diversidade de informação fora dos “jardins murados” de redes sociais e plataformas proprietárias.

Mas aqui está a contradição: se o Google confirma que o sistema de publicidade que sustenta esses sites está em declínio, isso inevitavelmente sinaliza que o ecossistema enfrenta enormes dificuldades para sobreviver.

Como afirmou Jason Kint, líder da associação de publishers Digital Content Next: a diferença entre “declínio da web” e “declínio da publicidade na web” pode, na prática, ser apenas semântica.

No fim, talvez a provocação mais dolorosa seja: a web aberta estaria declinando… para todos, menos para o próprio Google?

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Renê Fraga é fundador e editor-chefe do Eurisko, ecossistema editorial independente dedicado à inteligência artificial, código aberto, tecnologia e cultura digital. Atuando com projetos online desde 1996, escreve há mais de 20 anos sobre tecnologia e inovação, acompanhando a evolução da internet e o impacto das novas tecnologias na forma como vivemos, trabalhamos e pensamos.
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