Principais destaques
- IA entrou na jornada de compra: 53% dos consumidores brasileiros que compraram online usaram inteligência artificial em sua jornada mais recente.
- ChatGPT avança rapidamente: a participação da ferramenta na pesquisa de produtos saltou de 2% em 2024 para 32% em 2026.
- Google ainda lidera, mas recua: o buscador caiu de 79% para 63% como ferramenta de pesquisa no mesmo período, sinalizando uma mudança no comportamento digital.
A busca por um produto costumava começar quase sempre no Google. A pessoa digitava algumas palavras, abria uma sequência de resultados, comparava preços, lia avaliações e navegava entre sites.
Agora, parte desse caminho pode caber em uma conversa.
O consumidor pergunta o que precisa, apresenta suas preferências e espera que a inteligência artificial filtre opções, compare características e ajude a chegar a uma decisão.
E os números indicam que isso deixou de ser apenas uma possibilidade futura.
O Google continua na frente. Mas já não está sozinho 🔎
Segundo o Global Digital Shopping Index 2026, da Visa Acceptance Solutions, 53% dos consumidores brasileiros que fizeram compras online utilizaram inteligência artificial em sua jornada de compra mais recente.
O dado mostra que a IA já ultrapassou o território da simples experimentação.
Ela começa a ocupar etapas que ficam cada vez mais próximas do momento em que o consumidor decide gastar dinheiro.
A transformação fica ainda mais evidente quando se olha para as ferramentas utilizadas para pesquisar produtos.
| Ferramenta | 2024 | 2026 |
|---|---|---|
| 79% | 63% | |
| ChatGPT | 2% | 32% |
O Google ainda aparece como principal ferramenta de pesquisa. Mas perdeu 16 pontos percentuais em dois anos.
Enquanto isso, o ChatGPT saltou de apenas 2% para 32%.
📈 O salto é grande: em termos relativos, a participação do ChatGPT ficou 16 vezes maior no período.
E o que mudou na prática? 🤖
A diferença não está apenas na ferramenta escolhida.
Está no tipo de interação.
No modelo tradicional, o consumidor precisa transformar sua necessidade em uma consulta de busca. Depois, interpreta os resultados e monta sozinho a comparação.
Em uma interface conversacional, ele pode simplesmente explicar o que procura.
Quer um notebook para trabalhar e jogar, dentro de determinado orçamento? Uma viagem para determinada época, com algumas restrições? Um celular com boa câmera e bateria, mas sem pagar por recursos que não serão usados?
A IA pode organizar essas variáveis dentro da própria conversa.
🔎 A nova disputa pela descoberta: a questão deixa de ser apenas aparecer entre os primeiros resultados e passa a incluir a capacidade de ser citado, compreendido e considerado relevante por sistemas de IA.
A marca agora precisa ser encontrada de outro jeito
Para Johanna Goulart, CEO e fundadora da First Answer, startup brasileira especializada em AI Visibility e GEO (Generative Engine Optimization), essa mudança cria uma nova camada de presença digital.
“Quando o consumidor começa a delegar à inteligência artificial etapas da pesquisa, comparação e escolha, a marca precisa considerar também como ela é encontrada e apresentada nesses ambientes.”
A questão, portanto, não é simplesmente colocar uma empresa na internet.
É garantir que existam informações suficientes e consistentes para que sistemas de IA consigam compreender o que aquela empresa faz, reconhecer sua relevância e eventualmente apresentá-la como opção.
Isso muda também a maneira de pensar a visibilidade digital.
Não é só sobre aparecer no Google 📊
Durante anos, uma boa estratégia digital esteve fortemente associada a posições nos mecanismos de busca, tráfego orgânico, anúncios, backlinks e presença em marketplaces.
Esses elementos continuam importantes.
Mas a inteligência artificial adiciona outra camada ao processo.
Avaliações, conteúdos publicados, menções, informações institucionais e outras referências disponíveis na internet podem participar do conjunto de informações usado para construir respostas sobre marcas, produtos e serviços.
💡 A página de resultados está virando uma resposta: em vez de receber apenas uma lista de links, o consumidor pode receber uma seleção já interpretada por um sistema de IA.
Para as empresas, isso cria uma pergunta incômoda: o que uma inteligência artificial diria sobre sua marca se um cliente perguntasse por ela hoje?
O novo SEO pode ser mais conversacional
É nesse cenário que ganha espaço o conceito de AI Visibility, associado a estratégias de GEO.
A lógica não substitui automaticamente o SEO tradicional. Ela amplia o campo de disputa.
Uma empresa pode continuar trabalhando para conquistar posições nos resultados de busca enquanto tenta entender como aparece em respostas produzidas por sistemas generativos.
E há uma diferença importante.
No Google, dez empresas podem aparecer na primeira página.
Em uma resposta conversacional, a IA pode apresentar apenas algumas opções.
Isso torna a forma como uma marca é interpretada potencialmente tão importante quanto sua capacidade de aparecer em uma lista extensa de resultados.
Quando a IA começa a escolher com você 🛒
A mudança fica ainda mais interessante com a evolução dos agentes de inteligência artificial.
Hoje, boa parte da experiência ainda depende de o consumidor perguntar, ler e decidir.
Mas ferramentas capazes de pesquisar produtos, comparar alternativas e verificar condições de compra podem assumir uma parcela maior desse trabalho.
Nesse cenário, a interface deixa de ser apenas um lugar para encontrar informação.
Ela passa a funcionar como uma espécie de intermediária entre consumidor e mercado.
🧠 O ponto de virada: quanto mais etapas da compra forem delegadas à IA, maior será a importância de aquilo que o sistema sabe sobre uma marca antes mesmo de apresentá-la ao consumidor.
Isso pode afetar desde a descoberta de um produto até a percepção de reputação e adequação a uma determinada necessidade.
A métrica não termina mais no clique
Para Johanna, essa transformação também exige uma mudança na maneira como as empresas acompanham seus resultados.
O tráfego continua sendo uma métrica importante. O posicionamento em buscadores também.
Mas talvez seja necessário começar a observar uma camada adicional: como a marca está sendo representada pelas próprias inteligências artificiais.
“Se uma parcela cada vez maior da jornada passa pela IA, deixar de olhar para esse ambiente também significa deixar de acompanhar oportunidades de venda, receita e construção de reputação.”
A provocação é relevante porque o consumidor pode nunca clicar no site da empresa.
Ele pode perguntar à IA, receber uma recomendação, comparar algumas alternativas e seguir diretamente para a compra.
Nesse caso, a marca participou da decisão mesmo sem necessariamente gerar uma sessão tradicional de tráfego.
O Google não desapareceu. A jornada é que está mudando 🌐
Seria exagero interpretar os números como o fim do Google.
Com 63%, o buscador continua muito à frente do ChatGPT, que aparece com 32% na pesquisa de produtos.
O que os dados mostram é outra coisa: a jornada de descoberta está ficando mais fragmentada.
O consumidor não precisa mais escolher uma única porta de entrada.
Pode pesquisar no Google, perguntar ao ChatGPT, consultar avaliações, visitar um marketplace e voltar para uma IA antes de tomar a decisão.
E, em cada uma dessas etapas, a forma como uma marca é encontrada pode ser diferente.
A próxima disputa pode acontecer antes do clique
A transformação coloca as empresas diante de um novo tipo de concorrência.
Não basta disputar atenção com outras marcas. Será necessário disputar também a interpretação que os sistemas de IA fazem sobre essas marcas.
Para Johanna, essa mudança é estrutural:
“Mais do que acompanhar o crescimento da inteligência artificial como ferramenta, as marcas precisam compreender como esses sistemas estão interferindo na descoberta de produtos e na tomada de decisão.”
É uma mudança sutil, mas importante.
Durante anos, a pergunta era: “Como faço minha marca aparecer quando alguém pesquisar?”
Agora começa a surgir outra:
“O que a inteligência artificial vai dizer quando alguém perguntar qual marca deveria escolher?”
E, conforme agentes de IA assumirem mais etapas da compra, essa resposta poderá acontecer antes mesmo de o consumidor chegar a uma página de resultados.
